Ttulo: O homem que odiava as mulheres.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1983.
Ttulo Original: The Marquis who Hated Women.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
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O homem que odiava as mulheres
O marqus cerrou os punhos, furioso com a amante. As mulheres eram todas 
iguais, sempre querendo tirar o mximo de vantagem em troca de seus 
favores. Estava farto! Odiava-as todas, com seus truques, seus perfumes 
exticos e sua cobia. Continuou andando pela rua escura, ruminando a 
raiva, quando alguma coisa o atingiu na cabea. Uma mala? Osborne olhou 
para cima e no acreditou no que viu: numa janela, bem acima de onde 
estava, havia uma moa pendurada numa corda. Pouco depois, ela caa em 
seus braos. E comeava para os dois uma estranha aventura que os levaria 
da fria e nevoenta Londres at as areias trridas e perigosas do deserto 
de Saara.

Livros Abril.
Barbara Cartland
O homem que odiava as mulheres
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo original: "The Marquis who Hated Women"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1977
Traduo: Lygia Junqueira
Copyright para a lngua portuguesa: 1983 Abril S. A. Cultural e 
Industrial - So Paulo
Composto e impresso em oficinas prprias

CAPITULO I
1853

- Estou atrasado. Preciso ir embora.
Ao dizer isto, o marqus virou-se e comeou a sair da cama. Inez 
Shangarry deu um gritinho de protesto:
- Oh, no, Osborne. No! No pode sair to cedo. Quero voc!
O marqus libertou-se dos braos que o prendiam e saiu da cama, comeando 
a se vestir.
Deitada sobre os travesseiros, os cabelos negros soltos, o corpo nu, lady 
Shangarry estava muito atraente.
- No pode ir embora. No pode!  cedo, e so to poucas as noites em que 
podemos ficar assim a ss!
Havia em seus olhos um brilho sensual e os lbios vermelhos tinham uma 
expresso provocante.
- Voc  muito persuasiva, Inez - disse o marqus, dirigindo-se para a 
penteadeira, para dar o n na gravata.
- Quero ser persuasiva e quero que fique comigo. Sabe disto. Mas s vezes 
 difcil. Quando estamos juntos, voc  o amante mais excitante e mais 
perfeito do mundo.
O marqus deu o n na gravata, com mos experientes. Depois, pegando o 
palet, virou-se para a cama de lenis de seda, onde estava a mulher 
bonita e atraente.
- Amanh vou para o campo. Como tenho de partir cedo, vou precisar de meu 
"sono de beleza", assim como voc precisa do seu.
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- Isso no  nada lisonjeiro - respondeu Inez, com ar petulante. - Quero
que fique aqui comigo, Osborne. Depois de tudo que significamos um para o 
outro, bem que podia ficar mais alguns minutos!
- Duvido de que fossem s alguns minutos.
Era realmente difcil acreditar que um homem pudesse resistir aos 
encantos de lady Shangarry, conhecida como uma das mulheres de corpo mais 
perfeito, em Londres; admirada pelos conhecedores da beleza feminina, 
inclusive os dissolutos, os cnicos, e tambm por homens como o marqus, 
sabidamente exigente na escolha de companheiras.
Osborne conhecia perfeitamente sua reputao e tambm sabia que bastava 
olhar para uma mulher com interesse, para que ela ficasse pronta para 
cair em seus braos.
Entretanto, tinha resistido durante algum tempo aos encantos de lady 
Shangarry, por no gostar do modo confiante como tentara conquist-lo. Os 
modos de uma mulher que sabia que poucos homens lhe resistiam.
Finalmente, no apenas porque ela era bonita, como tambm porque a achava 
divertida, ele sucumbiu ao convite do olhar e das atitudes tentadoras do 
corpo voluptuoso.
Agora, vendo-a insistir tanto para que ele se demorasse mais, imaginou se 
ela no estaria se tornando um tanto maante, chegando mesmo a pensar que 
sua ligao estava chegando ao fim.
O marqus era conhecido como implacvel, em relao a seus casos 
amorosos. Gostava de ser o caador, mas, infelizmente, a perseguio era 
curta, porque o objeto de suas atenes no fazia fora para lhe escapar.
De um modo geral, as mulheres por quem se interessava logo se tornavam 
exigentes e no o deixavam em paz.
O marqus tinha trinta e trs anos e resistira a todas as artimanhas para 
atra-lo ao casamento, preferindo as mulheres casadas, e aliviava o tdio 
com uma sucesso de amantes.
O resultado era ele ser detestado por inmeros maridos.
Um engraadinho chegara a dizer:
Basta o marqus aparecer numa reunio, para que a presso
arterial da metade dos homens presentes suba!
Embora recebesse muitas ameaas, ele nunca chegou a ser apanhado em 
flagrante.
Era to discreto e to cauteloso, em pblico, que os boatos sobre suas 
aventuras amorosas se baseavam em conjeturas, e no em provas concretas.
- Querido, voc  o homem mais bonito que j vi - disse Inez, ainda na 
cama.
- Sinto-me lisonjeado. - Mas seu tom era ctico.
- Verdade! E  por isto que quero beij-lo. Venha c. No pode recusar um 
ltimo beijo.
Ao dizer isto, estendeu os braos claros, mas o marqus riu e sacudiu a 
cabea.
- J me pegaram desse jeito, antes!
Sabia perfeitamente que, se um homem se inclinasse sobre uma mulher 
deitada na cama e ela o agarrasse, estaria perdido. Percebia as intenes 
de Inez e isto reforou sua deciso de no ceder.
Ela era insacivel. Depois de uma ardente cena de amor, no parecia 
cansada, ao passo que ele s desejava fugir daquele quarto quente e 
perfumado.
Havia uma fragrncia de flores, misturada com o perfume extico que Inez 
usava e que ficava nas roupas dos amantes, muito depois de terem se 
separado dela.
No h dvida de que  muito bonita, pensou o marqus. Ao mesmo tempo, 
faltava-lhe qualquer coisa que ele no sabia definir.
Inez conseguia faz-lo rir, com seus ditos espirituosos, o que no 
acontecia com a maioria das mulheres; mas, embora seu relacionamento 
fosse ardente e tempestuoso, estava certo de que no a amava.
Na verdade, seu corao no havia sido atingido, como sempre acontecia 
com seus casos amorosos; se nunca mais a visse, isto no faria a menor 
diferena.
- Preciso ir embora, Inez. Obrigado por uma noite encantadora. Qualquer 
dia desses, vamos jantar juntos.
Pegou sua mo para beijar, mas ela o segurou com fora.
- Beije-me, Osborne. Fique mais um pouco. Eu quero, preciso de voc! No
v embora!
Havia em sua voz uma nota to apaixonada e uma to grande determinao em 
prend-lo ali, que o marqus a olhou, surpreso.
Ento, ouviu um rudo leve no andar de baixo. Era realmente muito leve, 
mas percebeu que Inez tambm o ouviu. Ela o agarrou ainda com mais fora 
e seu tom de voz foi agora mais alto:
- Eu o amo, Osborne! Eu o amo! Beije-me, por favor!
O marqus libertou-se e se dirigiu, no para a porta que dava para o 
corredor, e sim, para o outro quarto, ocupado por lorde Shangarry, quando 
ele se achava em casa.
O quarto estava s escuras. O marqus aproximou-se da janela e a abriu.
A noite estava estrelada e a Lua era visvel por entre as nuvens 
esparsas.
O marqus olhou para baixo e calculou que seria uma queda de mais ou 
menos trs metros e meio, at o telhado abaixo; depois, mais uma 
distncia grande, at o ptio onde ficavam as estrebarias.
Sem perder tempo, passou para o lado de fora da janela e, firmando-se nos 
braos, esticou o corpo. com uma destreza de atleta, caiu de leve no 
telhado. Caminhou pela borda e, apoiando-se num cano, chegou ao cho.
Sentiu que as costuras das mangas do palet se abriam embaixo dos braos, 
mas a verdade  que seu alfaiate no o fizera pensando que o dono fosse 
meter-se em acrobacias, quando estivesse vestido para jantar.
O ptio das estrebarias estava cheio de sombras, e o marqus caminhou 
depressa, escondendo-se numas delas, junto  porta de uma cocheira. 
Depois, olhou para a janela de onde tinha pulado.
No precisou esperar mais do que alguns segundos.
No vo da janela, surgiu um homem, que se inclinou e olhou atentamente 
para o telhado logo abaixo, e depois para as estrebarias.
Osborne ficou imvel. Reconheceu perfeitamente lorde
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Shangarry e soube que havia escapado de uma armadilha habilmente
preparada.
Seu sexto sentido devia ter feito com que estranhasse a insistncia de 
Inez para que ele no fosse embora, uma percepo especial em relao s 
mulheres.
J fazia algum tempo que achava que o desejo da amante de possu-lo 
estava chegando a um ponto perigoso.
Compreendia agora que, conforme tinha sido planejado pelo casal, se o 
marido o encontrasse em situao comprometedora com Inez, s havia duas 
coisas a fazer. A primeira seria lorde Shangarry pedir o divrcio. Neste 
caso, Inez acabaria sendo a marquesa de Linwood. Assim, por maior que 
fosse o escndalo, o mal seria reparado.
Como alternativa, e o marqus achava que era o mais provvel, lorde 
Shangarry pediria uma grande soma de dinheiro para curar seu amor-prprio 
ferido.
Vendo-o  janela, Osborne teve certeza de que o plano tinha sido 
engendrado entre marido e mulher. Lembrou-se de que algum, no clube, 
havia dito que lorde Shangarry estava profundamente endividado, e, pelo 
que Inez lhe contara, a situao parecia sem soluo.
Que poderia haver de melhor, sob o ponto de vista do marido, do que fazer 
chantagem, discretamente,  claro, com um homem rico como o marqus?
O casal sabia que ele no ia querer ser envolvido num processo 
escandaloso. Alm do mais, era suficientemente rico para pagar por suas 
tolices.
- Fui um idiota - murmurou.
Quando lorde Shangarry se convenceu de que sua presa tinha escapado e 
fechou com fora a janela, o marqus disse:
- Maldita mulher! Malditas sejam todas as mulheres! Odeio-as a todas! 
Sempre as odiei!
Esta violncia o surpreendeu, mas em parte o que disse era verdade. No 
gostava das mulheres, em geral. Embora achasse que tinham suas vantagens 
como divertimento, sentindo um prazer
efmero quando se entregavam a ele, nunca havia encontrado uma cuja
companhia preferisse  de um homem ou de quem se separasse com pesar.
O modo como Inez se comportara naquela noite era, na opinio dele, 
tipicamente feminino.
Agora via que gradualmente ela se insinuara em sua vida e que o fato de 
outros homens a elogiarem tanto tinha feito com que o marqus a julgasse 
mais desejvel do que realmente era.
Pensando bem, era igual a todas as outras com quem tivera um caso; nada 
tinha de especial.
Recriminou-se por ter agido como um jovem imaturo, quase se deixando 
apanhar numa armadilha e chegando a uma situao da qual dificilmente 
teria podido escapar com dignidade.
- Malditas mulheres! - murmurou novamente.
Depois de esperar durante algum tempo, at ter certeza de que lorde 
Shangarry no estava mais espiando pela janela, ele se virou e procurou 
sair dali.
Ouviu os cavalos, que pareciam agitados, nas baias, e, de vez em quando, 
o assobio de um cavalario escovando um animal.
Havia ali um cheiro de couro, de feno e de cavalo, que o marqus conhecia 
bem.
Isto fez com que se lembrasse do campo, despertando nele um desejo de 
ficar livre de Londres, dos mexericos e das intrigas que detestava; 
principalmente, quando diziam respeito a ele.
J havia caminhado um bom pedao, quando parou de repente, lembrando-se 
de que, por mais esperto que tivesse sido ao fugir da casa de Inez, 
deixara suas provas incriminadoras: seu chapu e sua capa.
No pensou nisto, at que o vento de janeiro fez com que tremesse de 
frio.
Shangarry devia ter visto os dois objetos no hall e, quela hora, com 
certeza discutia com a mulher como poderiam aproveitar-se disso.
O marqus apertou os dentes, encolerizado.
Como  que no desconfiara de nada, quando Inez lhe havia
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contado, insistentemente, que o marido no estaria em Londres, naquela 
noite?
Patrick vai visitar uns amigos em Epsom - dissera ela. Quer ver os 
cavalos deles e no pretende voltar hoje, porque escurece muito cedo 
nesta poca.
Na ocasio, isto pareceu plausvel. Mas agora o marqus achava que tinha 
sido estpido, ao pensar que um homem que gostasse da mulher, fosse 
deix-la sozinha em Londres, sabendo quem estaria com ela em sua 
ausncia.
Subestimei minha prpria reputao, disse a si mesmo. Em geral, no 
costumava fazer isto. Agora, nada podia fazer a respeito, mas ficou 
furioso ao pensar em seu chapu e na capa forrada de cetim vermelho que 
tinham ficado na cadeira de mogno, no hall modesto da casa de Inez.
Quando voltaram do restaurante, onde jantaram numa sala reservada para 
no serem vistos juntos, o desejo se apossou de ambos, fazendo com que 
Inez o levasse para o quarto, sem nem mesmo tomarem o habitual copo de 
vinho.
Agora o marqus se lembrava claramente de t-la ouvido dizer: "Deixe suas 
coisas aqui". Maquinalmente, ele colocara o chapu e a capa numa cadeira.
Depois, Inez subira a escada, a saia rodada balanando sedutoramente, os 
ombros nus brilhando  luz de gs.
- Mereo tudo o que est me acontecendo - disse, furioso. Na minha idade, 
com a minha experincia, eu devia ter aprendido a no confiar em ningum, 
e muito menos em uma mulher!
Estremeceu de frio e apressou o passo, chegando aos limites das cocheiras 
e entrando numa rua onde as casas davam diretamente na calada.
No tinha caminhado muito, quando, de repente, alguma coisa caiu a seus 
ps, com rudo. Instintivamente, pulou para trs. Se o objeto tivesse 
batido em sua cabea, certamente o teria derrubado.
Viu que era uma valise elegante, como as que as senhoras levam quando 
viajam de carruagem ou de trem. Ficou surpreso. Depois,
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olhando para cima, de onde tinha vindo a mala, ouviu algum gritando por 
socorro.
com surpresa, viu que, bem acima de sua cabea, estava uma mulher, 
pendurada numa corda. A saia rodada estava enfunada, parecendo mante-la 
suspensa no ar.
Osborne compreendeu que o problema era a corda no chegar at o cho, 
faltando mais ou menos um metro e oitenta para isto.
- Socorro! - gritou ela, novamente. - Socorro!
Sem refletir muito, o marqus adiantou-se, estendeu os braos e segurou-a 
pelos tornozelos.
- Pode largar a corda. No deixarei que voc caia.
A moa obedeceu, e o marqus logo sentiu as mos dela em seus ombros. 
Segurando-a pela cintura, fez com que escorregasse lentamente para o 
cho.
A desconhecida usava um vestido caro, de seda, e um perfume que lembrava 
flores da primavera.
Assim que se viu livre, a moa comeou a alisar a saia e puxar para baixo 
as mangas do casaco justo.
- Obrigada. Eu temia que a corda no fosse bastante comprida, mas tinha 
que correr o risco.
- Que aconteceu com o cavalheiro que devia ajud-la a fugir?
- perguntou o marqus, com uma nota divertida na voz. Certamente, j 
devia estar aqui!
- No  nada disso! - respondeu a moa, bruscamente. Agora, ao luar, viu 
que era muito jovem, quase uma menina.
Quando o vento levantou a aba do chapu, notou um rostinho de queixo 
pontudo e olhos muito grandes.
- No est fugindo com um namorado?
- No! Claro que no! Estou fugindo de um homem; no com um homem! Se 
quer saber a verdade, odeio os homens! Odeio-os a todos!
O marqus riu e, quando ela o fitou, admirada, explicou:
- Eu tinha acabado de dizer a mim mesmo que sinto a mesma coisa; s que, 
em meu caso, odeio as mulheres!
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A moa no pareceu interessada pela explicao e abaixou-se para pegar a 
valise.
Era pesada demais para ela, de modo que a pegou com as duas mos. Havia 
algo de to imaturo na jovem, que o marqus disse:
Se pretende fugir sozinha, aconselho-a a pensar bem. No o
conseguir, sem que algum a ajude! Ento, seja uma boa menina, volte 
para casa e reflita melhor. Suponho que as coisas no so to ms como 
acredita.
- No tenho a mnima inteno de voltar.
- Ento, acho que  meu dever obrig-la.
Ela deu um gritinho e largou a valise, que caiu junto aos ps dela. Antes 
que Osborne pudesse compreender o que estava acontecendo, a moa comeou 
a correr, fugindo com uma pressa que fez com que sua saia parecesse voar 
atrs dela.
- Pare! - gritou o marqus. - No tenho nada a ver com isso! Pare, j 
disse!
Apanhou a valise, preparando-se para correr atrs dela. Nesse momento, 
algum saiu das sombras, na extremidade da rua, e a moa gritou de medo.
Caminhando depressa, mas sem largar a valise que era bastante pesada, o 
marqus foi at o ponto onde ela lutava com algum.
Viu que se tratava de um daqueles vagabundos que andavam pelas ruas tanto 
de noite quanto de dia, na esperana de ganhar alguns nqueis segurando 
um cavalo ou, quando havia oportunidade, batendo uma carteira.
- Ela est segura, patro. Est presa - disse o homem, quando o marqus 
chegou junto a eles.
- Largue-me! No se atreva a tocar em mim! - dizia a moa, furiosa, 
procurando soltar a mo.
- Solte-a! - ordenou o marqus. Tirou uma moeda do bolso e atirou-a no 
cho. - Agora, d o fora!
O homem pegou a moeda e obedeceu.
Enquanto a moa esfregava os pulsos, Osborne disse, calmamente:
- No precisa fugir de mim. O que voc fizer no  da minha
conta, mas acho que j percebeu que  perigoso, para uma moa, andar 
sozinha pelas ruas a esta hora da noite.
- Eu estava com esperana de encontrar uma carruagem de aluguel.
- Talvez haja alguma em Grosvenor Square.  para l que vou. Se quiser, 
posso carregar sua valise.
- Obrigada. Pensei que pudesse encontrar uma carruagem no ponto, em 
Berkeley Square. - Fez uma pausa e acrescentou: Para dizer a verdade, 
nunca andei numa carruagem de aluguel. S isto j seria uma aventura.
- Se est procurando aventura, conheo algumas menos perigosas do que 
andar sozinha por Londres no meio da noite.
- No estou fazendo isto por prazer! - respondeu, brusca. Tinha que 
fugir! Se ficasse...
Interrompeu-se, como se estivesse falando demais. Os dois caminharam em 
silncio.
O vento que soprou contra eles em Carlos Place fez com que o marqus 
estremecesse. Notou que sua companheira tambm tremia.
- No trouxe uma capa?
- Tenho um xale na valise, pois no seria muito fcil descer pela corda 
com uma capa nos ombros.
- No, claro que no.  uma maneira muito incmoda de sair de casa.
- O lacaio da noite fica sentado no hall - disse a moa, como se achasse 
que ele estava sendo estpido. - E achei que, se tentasse sair por uma 
das portas laterais, algum dos empregados me ouviria. Outro lacaio dorme 
na copa.
- Compreendo o seu dilema, mocinha!
Ela percebeu a nota divertida de sua voz e disse, zangada:
- Pode parecer engraado para voc, mas tenho que planejar tudo 
cuidadosamente. Quando pensei que voc ia atrapalhar todos os meus 
planos, claro que procurei fugir.
- Claro!
- Agora, s o que desejo  uma carruagem de aluguel.
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Para onde quer ir? Os cocheiros, em geral, no gostam de ir
longe, a esta hora da noite.
Vou para o Egito.
Para o Egito? - repetiu, atnito.
Vou procurar meu pai.
E pretende realmente viajar sozinha?
- No h ningum para me acompanhar. Prefiro tomar um trem bem cedo, para 
Southampton, antes que meu tio descubra que
fugi.
O marqus virou-se e olhou-a, admirado. Ento, lembrou-se de seu prprio 
problema e encontrou uma possvel soluo.
Seu iate estava em Southampton. Se conseguisse sair de Londres antes que 
lorde Shangarry fosse visit-lo para lhe devolver o chapu e a capa, e 
pedir explicao para sua presena na casa dele, poderia se considerar 
livre da armadilha.
Continuou refletindo e chegou  concluso de que, assim que estivesse 
fora da Inglaterra, o casal Shangarry teria que procurar outro para pagar 
suas contas. Seria impossvel esperarem pela volta do marqus, pois os 
credores os estavam pressionando.
Pois seria isso exatamente o que faria! Levaria o iate imediatamente para 
o Mediterrneo, que era o que pretendera fazer embora s dali a um ms. 
Ningum se surpreenderia. A temporada de caa tinha terminado; o fato de 
ele deixar Londres em janeiro no provocaria comentrios.
Alm do mais, seria lavrar um tento contra Inez Shangarry e seu plano 
traioeiro!
- Diabo!  o que vou fazer - murmurou. Lembrou-se, ento, de que no 
estava s.
- Disse alguma coisa? - perguntou a moa.
- Estava falando sozinho.
Chegaram a Grosvenor Square e o marqus olhou para o ponto onde 
geralmente havia uma fila de carruagens com cavalos cansados e mal
alimentados. Mas agora no havia nenhuma.
- Acho que  mesmo muito tarde - observou a moa, nervosa.
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Infelizmente, creio que sim. Mas tenho uma sugesto a
fazer, que talvez seja vlida.
- Qual ?
- Pretendo sair de Londres esta madrugada. Acontece que tambm vou para
Southampton e preciso perguntar a respeito do horrio dos trens.
Chegaram  porta de sua casa e ele parou. Disse, ainda:
- A linha direta, como deve saber,  de Nine Elms, a estao antes de 
Claphan Junction. Se voc quiser esperar um pouco, enquanto consulto o 
Bradshaw, creio que meu lacaio talvez consiga achar uma carruagem para
lev-la  estao.
- Por que  que no posso entrar com voc?
O marqus fitou-a e,  luz do luar, ela percebeu a surpresa dele.
- Desculpe-me - disse, humildemente. - Vejo que no devia ter sugerido 
isto.
- Ao contrrio,  uma sugesto muito sensata. Peo perdo, porque eu  
que devia ter pensado nisso. Mas a questo  que no estou acostumado a 
encontrar moas que queiram ir para o Egito!
- Estou habituada a viajar - disse a moa, quase com antagonismo. - No
precisa se preocupar comigo.
- No estou preocupado. Se adiantar alguma coisa, ficarei encantado em 
acompanh-la at a estao.
Ao dizer isto, dirigiu-se para a porta. Era uma casa grande, imponente.
A moa olhou para o marqus, hesitante.
- Acho que no devo entrar em sua casa... sozinha... com voc...
- Se est preocupada com as convenincias sociais, acho que no h muita
diferena entre isto e sair de casa pendurada numa corda! E, se est
nervosa quanto s minhas intenes, garanto que eu estava falando srio, 
quando lhe contei que odeio as mulheres!
- Assim como odeio os homens - completou a moa, com um  sorriso 
bastante atraente.
- Ento, estamos de acordo nesse ponto, mesmo que no em
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outros. Acho que seria mais sensato entrar do que ficar aqui e se 
arriscar a uma pneumonia.
- Obrigada. Para dizer a verdade, estou gelada.
O marqus bateu  porta, que foi aberta imediatamente por um lacaio. O 
homem pareceu surpreso, ao ver o patro sem chapu e sem capa, parecendo 
ter vindo  p, e carregando uma valise.
O marqus entregou-lhe a maleta e disse:
- Quero bebidas quentes, James, e alguma coisa para comer. Diga a Hignet 
que nos sirva na biblioteca.
- Perfeitamente, milorde.
Osborne abriu uma porta e fez a moa entrar na vasta biblioteca. Da se 
via um jardim nos fundos da casa.
Havia muitas luzes acesas, e o lacaio, que os seguiu, acendeu a luz a 
gs. Era um aposento confortvel e bem mobiliado, repleto de livros e 
bastante luxuoso.
O marqus foi at a escrivaninha e abriu vrias gavetas, antes de 
encontrar o que procurava. Depois foi at a lareira diante da qual a moa 
estava abaixada, aquecendo as mos.
- Fui uma tola em no trazer a capa. Pensando bem, poderia t-la jogado 
pela janela, junto coma valise.
- Como a valise quase me atingiu, teria sido muito desagradvel ver-me 
tambm enrolado numa capa!
- Eu no esperava encontrar ningum na rua, a esta hora da noite.
A moa fitou-o, e ele percebeu que no se enganara: realmente era bonita 
e tinha olhos enormes, de um tom cinza-escuro.  luz da lareira, ela 
parecia muito frgil e delicada.
- Agora, acho que est na hora de nos apresentarmos - disse Osborne. - 
Confesso que estou curioso de saber por que voc deseja empreender essa 
viagem longa e rdua, sozinha.
- Meu nome  Raryana Bartlett.
- Raryana? Nunca ouvi esse nome antes.
-  indiano. Meu pai estava fazendo exploraes na ndia, pouco antes de 
eu nascer, e mame resolveu que eu devia ter um nome indiano, porque ela 
os achava atraentes.
- Seu pai  um explorador?
- No.  arquelogo.
- Claro! O professor Richard Bartlett. Conheo-o de nome. Li o livro que 
escreveu sobre suas descobertas na Prsia.
- Papai  famoso. Mas h quase nove meses que no tenho notcias dele. 
Estou preocupada, muito preocupada com o que possa ter lhe acontecido.
- Disse que ele est no Egito?
- Sim. Partiu na primavera, para se encontrar com um homem chamado 
Auguste Mariette, que tinha feito umas descobertas sensacionais, perto 
das pirmides. Escreveu a meu pai sobre isso e ele resolveu partir 
imediatamente. Ento, pediu ao irmo, sir Hardwin Bartlett, com quem 
estvamos hospedados, que tomasse conta de mim.
- Creio que conheo sir Bartlett - disse o marqus, franzindo as 
sobrancelhas.
- Lamento que o conhea.  um homem horrvel, teimoso, obstinado, e eu o 
detesto! Se eu tivesse um pouco de inteligncia, devia t-lo matado, 
antes de fugir!
- Voc  muito sanguinria! - Osborne riu.
- Pode rir! Mas no sabe o que sofri, morando com ele!
Tirou o chapu, com um gesto brusco, revelando cabelos louros
com reflexos dourados. As chamas da lareira faziam com que
brilhassem, e o marqus achou que a moa no s era bonita, como
tinha um encanto estranho, que jamais encontrara em mulher
alguma.
- Seja seu tio como for, voc tomou uma atitude muito drstica, fugindo 
desse jeito, sem ter ideia das dificuldades que poderia encontrar e sem 
ningum para proteg-la.
- Nenhuma dificuldade seria pior do que tentar convencer meu tio de que 
no tenho inteno de casar com lorde Stroud!
- Stroud?  scio de meu clube.  bem mais velho do que voc!
- Tem quarenta e quatro anos. Mas meu tio acha que ele teria
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uma boa influncia sobre mim e, como meu tutor, acredita que no tenho
escolha, que pode me obrigar a casar com lorde Stroud.
- Concordo que isso  ridculo. Voc  jovem demais para casar com um 
homem como Stroud.
Lembrou-se de ter-se encontrado com ele em algumas festas e de terem 
conversado ligeiramente no Clube White's, Sempre o havia considerado um
homem pesado, maante, que gostava de pontificar sobre qualquer assunto
discutido, parecendo o dono da verdade.
- Sabe? A questo  que sou uma herdeira - disse Raryana. O marqus 
ergueu as sobrancelhas, e ela continuou: - Sei que  vulgar falar sobre 
dinheiro, mas no creio que lorde Stroud ou qualquer dos homens que me 
cortejam o fizessem com tanto entusiasmo, se meu tio no lhes dissesse 
que serei rica, quando completar a maioridade.
- Creio que est subestimando seu encanto pessoal - disse o marqus, com 
um trejeito nos lbios.
-  mais atraente uma pessoa ser rica do que pobre. Sei que eles 
gostariam de pr as mos nas cem mil libras que minha me me deixou como 
herana.
-  uma fortuna!
-  o que eles pensam. Mas no vou casar com nenhum deles, faa o tio 
Hardwin o que fizer!
- Que quer dizer com isso?
- Oh, ele ameaou bater em mim, prender-me no quarto a po e gua. Usou 
todas as ameaas possveis, mas no vou ceder. No vou! Prefiro morrer!
Falou com tal violncia que Osborne no pde deixar de sorrir. Era 
pequena e frgil, mas parecia uma fera.
Depois, refletiu que cometeria um grande erro, caso se envolvesse com os 
problemas de Raryana. Uma coisa era defender uma moa que quase cara em 
cima dele na ponta de uma corda, e outra era ajudar uma herdeira a fugir 
de seu tutor.
- Mas voc deve ter outros parentes a quem possa recorrer.
- Se quisessem me receber... do que duvido! Todos tm
in
demasiado medo do tio Hardwin, para ir contra seus desejos. Ele  o chefe 
da famlia. Papai sempre dizia que era melhor bater a cabea na rocha de 
Gibraltar do que tentar fazer meu tio mudar de ideia sobre alguma coisa. 
- Fez uma pausa e disse, em voz baixa:
- Ele est decidido a me obrigar a casar com lorde Stroud, mas eu o 
detesto! Prefiro ser tocada por um rptil!
- Posso compreender isso. Por outro lado... Interrompeu-se. Resolveu que 
no ia discutir com Raryana, mas que a convenceria de que seu problema 
nada tinha a ver com ele.
Abriu o Guia Bradshaw e folheou-o. Dali a momentos disse:
- Vejo que h um trem expresso que sai de Nine Elms s sete da manh e 
chega s nove e cinquenta em Southampton. Isto quer dizer que temos que 
sair daqui mais ou menos s seis horas.
- No h um mais cedo? As criadas da casa de meu tio se levantam s cinco 
e meia e algum pode notar a corda pendurada na minha janela...
- H um s seis e meia -T- respondeu o marqus, consultando o guia. - Mas
no chega a Southampton antes do outro e pra em todas as estaes.
- Ento, acho melhor arriscar esse. No  provvel que meu tio procure 
por mim nele.
- Pouco provvel. Se voc for na minha carruagem, tambm acho improvvel 
que seu tio desconfie de que sou seu acompanhante.
- Tem razo. Muito obrigada pela sugesto.  o que eu gostaria de fazer.
A porta abriu-se e o criado de quarto do marqus entrou.
- Mandou me chamar, milorde?
Falava em voz baixa, como se estivesse habituado a ser acordado no meio 
da noite para atender o patro.
- Sim, chamei-o, Hignet. Devemos partir para Southampton s seis horas. 
Vamos para o iate. Ponha na mala as coisas de que vou precisar.
- Para tempo frio ou quente, milorde?
20
Talvez eu v para o Mediterrneo, ou mesmo para o
Marrocos.
Muito bem, milorde.
Como acho desnecessrio acordar a sra. Kingdom, seria bom
que voc levasse esta jovem senhora a um dos quartos, onde ela possa se
lavar e se preparar para a viagem. Pedi que trouxessem bebidas quentes e
comida. Tudo est sendo preparado?
O chef foi avisado, milorde. E vo precisar de comida, na
viagem. Quer que prepare uma cesta para dois?
O marqus hesitou um momento.
- Duas cestas, Hignet. Creio que a moa vai preferir viajar numa 
carruagem reservada para senhoras.
Hignet esperou. Levando o chapu na mo, Raryana se preparou para 
acompanh-lo.
- Pea a Hignet o que quiser - disse o marqus.
- Obrigada.
Vendo-se s, Osborne ficou olhando para o fogo e seus pensamentos 
voltaram a seus problemas pessoais. Tinha certeza de que a nica coisa 
sensata a fazer seria deixar o pas. Ao mesmo tempo, ficava aborrecido 
por sacrificar o amor-prprio e fugir. Mas a alternativa era ainda mais 
humilhante, porque estava certo de que Shangarry procuraria extorquir 
dele o mximo de dinheiro possvel e tentaria denegrir sua imagem diante 
dos amigos.
Isto o ensinaria a ter mais cuidado, no futuro, com as pessoas a quem se 
associasse. Se precisasse de mulher, estaria muito mais seguro procurando 
uma profissional. Sempre detestara as cocotes. O fato de elas venderem 
seu amor era uma coisa que achava sumamente desagradvel.
Agora, perguntou a si mesmo se havia alguma diferena entre uma mulher 
que cobrava abertamente por servios prestados e uma dama da sociedade 
que esperava receber jias e outros objetos de valor, em retribuio ao 
chamado "amor".
Tudo isso era repulsivo para o marqus. Assim como Raryana, ficou 
encantado com a ideia de deixar Londres, de se ver livre dos tentculos 
da sociedade que pareciam agarr-lo de mil maneiras.
21
Pensou, com prazer, no iate que o esperava em Southampton. Era realmente
uma sorte ter sido entregue um ms antes. Vinha antecipando o prazer de
experiment-lo, embora no tivesse pensado em nada imprevisvel como se
pr ao mar em Janeiro. Havia uma grande probabilidade de a baa de
Biscaia estar pior do que em maro ou em abril. Ningum podia ter certeza
do tempo.
Lembrou-se, satisfeito, de que, por mais agitado que estivesse o mar, ele
e Hignet nunca enjoavam. Tinham viajado juntos por vrias partes do mundo
e ele sabia que, por maiores que fossem as dificuldades, Hignet
permaneceria o mesmo, controlado, cheio de recursos e sempre pronto a
fazer o melhor.
De repente, sentiu-se como um colegial que parte para as frias.
Vou para um pas rabe, decidiu.  o mundo dos homens, onde eles tm o
bom senso de manter as mulheres em purdah e de rosto coberto at os
olhos, para no tentarem ningum.
Riu, sabendo que levaria muito tempo para se refazer da situao em que
se via, quase tendo sido ludibriado por uma mulher.
Ainda pensava em Inez Shangarry, quando a porta se abriu e Raryana
apareceu.
Tinha tirado o casaco e agora usava um xale sobre os ombros, que cobria
uma blusa de musselina com aplicaes de renda. Parecia muito jovem e
ainda mais frgil do que antes.
Instintivamente, o marqus quase chegou a dizer que ela devia permitir
que ele a levasse para a casa do tio e tutor, em vez de se lanar numa
aventura to louca.
Depois achou melhor ficar calado e no se envolver com uma pessoa que
nada tinha a ver com ele. Conhecera Raryana por mero acaso, e pronto!
Atrs dela entraram dois lacaios carregando uma mesinha que colocaram
diante da lareira.
- O chef pede desculpas, milorde - disse um deles -, mas, achando que o
senhor tem pressa, preparou pratos simples e rpidos. Espera que no
fique decepcionado.
- Creio que nos arranjaremos.
22
O outro lacaio abriu uma garrafa de vinho. O marqus provou-o e inclinou
a cabea.
Tome um pouco de clarete, srta. Bartlett. Far com que no
sinta frio e lhe dar foras para a viagem.
Para dizer a verdade, estou com muita fome. Tive uma
discusso com meu tio, antes do jantar. Recusei-me a descer para comer e, 
naturalmente, ele no se dignou a mandar uma bandeja para meu quarto.
- Pois aproveite, agora - disse o marqus, vendo com satisfao que, 
apesar das desculpas do chef, vrios pratos em bandejas de prata estavam 
sendo colocados na mesa.
Havia realmente tanta coisa que, antes de ser servido o ltimo prato, 
Raryana protestou, dizendo que no podia comer mais nada.
- Hignet vai providenciar para que voc tenha uma cesta, em Southampton. 
Como vamos chegar cedo, com certeza encontrar um navio que partir 
durante o dia. Infelizmente, o Guia Bradshaw no d a lista dos navios.
- Acharei um - respondeu Raryana, confiante. - E, depois que estivermos 
ao largo, ficarei livre de tio Hardwin.
- Tem medo dele? No me parece do tipo de ter medo de ningum, nem de 
qualquer coisa.
- Para ser franca, ele me assusta - confessou, em voz baixa.
-  um homem grande, e, quando ameaou bater em mim, se eu me recusasse a
casar com lorde Stroud, eu sabia que dizia a verdade.
- Certamente, seu pai aprovaria isso.
- No, claro que no! Papai  a melhor pessoa do mundo. Ao dizer isto, 
ela sorriu, tristemente. - Infelizmente, sempre se esquece de minha 
existncia, quando fica excitado com uma mulher que tirou de algum tmulo
e que viveu h trs mil anos. Ou ento, quando descobre a esttua de um
animal que perdeu uma perna e a cabea tambm!
O marqus sorriu.
Deve ser frustrante para voc, mas  o preo que tem que pagar por ter um 
pai famoso.
Gostaria de saber o que lhe aconteceu. Escrevi a monsieir
Mariette, mas creio que no recebeu minha carta. E tio Hardwin diz que 
tem certeza de que papai morreu!
- Por que tem certeza?
- Porque papai me escrevia pelo menos uma vez por ms. Nunca falhou. 
Assim como escrevia para mame todas as semanas, quando estava ausente, 
fazendo suas escavaes.
- Sua me morreu? - perguntou o marqus.
- Sim, h trs anos. Sei que, se estivesse viva, no deixaria que meu tio 
me obrigasse a casar com um homem a quem eu no amo.
- Pensei que voc odiasse todos os homens. Apesar disto, tem esperana de 
vir a amar algum.
- Nunca amarei um homem - declarou Raryana, decidida. Odeio-os quando 
querem mandar em mim e odeio-os quando tm aquele olhar idiota, meloso, e 
querem tocar em mim. - Suspirou.
- Quando disse isto a meu tio, ele respondeu que sou anormal. Mas no 
vejo razo para a gente dizer que gosta de algum, se no gosta, e acho 
os homens repulsivos... todos eles!
- Eu devia ficar ofendido com isso.
Ela fitou-o e ele pensou, surpreso, que Raryana o considerava um homem, 
pela primeira vez.
- Mas voc  diferente, porque diz que detesta as mulheres! Se tentasse 
mandar em mim, ou me olhasse com ar meloso, eu o detestaria tambm!
- vou ter muito cuidado para no fazer nenhuma dessas coisas!
- Agora est de novo zombando de mim - disse ela, em tom acusador. - Mas 
nunca mais nos veremos, depois que chegarmos a Southampton, de modo que 
no vejo razo para no lhe falar a verdade.
- Prefiro a verdade, sejam quais forem as circunstncias. Colocando os 
braos na mesa e apoiando o queixo nas mos, a
moa fitou-o, pensativa.
- Fico imaginando se est sendo sincero. Tenho a impresso de
24
que est habituado a que as mulheres o adulem.  por isto que as acha
aborrecidas?
Est sendo muito perspicaz.
 verdade, no? Percebo que  muito rico e, como tambm
tem um ttulo, as mulheres correm atrs de voc.  horrvel pensar nisso.
Elas no o querem... querem o que voc possui.
- Voc  moa demais para ser to ctica.
- No sou ctica. Sou sincera, e poucas pessoas dizem a verdade. Papai
diz que isto mete as pessoas em encrencas. E tem razo: tudo o que digo
cria logo uma discusso com as pessoas a minha volta!
- Se  franca com elas como est sendo comigo, no  para se admirar! - 
disse o marqus, secamente.
- Desculpe se o ofendi. Afinal, devia estar grata por ter rne ajudado e 
por me levar at a estao. - Ao dizer isto, olhou para o relgio. - No
 hora de partirmos?
- No h pressa. Para ser franco, o que me preocupa  que vai sentir
muito frio, sem uma capa. - Tocou a campainha, e logo um lacaio
apareceu. - Pergunte a Hignet se no temos em casa um agasalho, um manto
ou uma capa para a moa. Talvez lady Sar tenha deixado alguma coisa, da 
ltima vez que esteve aqui.
- vou perguntar, milorde.
- Quem  lady Sarah?
- Minha irm.  casada e mora no campo, mas quando vem a Londres 
geralmente usa esta casa como se fosse um hotel. Sempre deixa uma poro 
de coisas aqui. Guardamos algumas, at ela voltar, mas outras tm que ser
mandadas para o campo, dando muito trabalho e despesa!
Raryanariu.
- Esperemos que sua irm tenha deixado alguma coisa til desta vez.
Seu desejo foi satisfeito. Dali a pouco, Hignet apareceu com uma capa de
veludo preto, forrada de pele.
- Foi a nica coisa que encontrei, milorde. Sua irm a Usa quando vai ao 
teatro.
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- Acho que ser muito til. Raryana deu um gritinho.
- Deve ser muito valiosa! Sua irm no vai gostar, principalmente porque 
talvez leve tempo para ser devolvida.
- Creio que vamos nos arriscar a enfrentar sua clera. Se voc morresse 
de pneumonia, a caminho do Egito, eu ficaria cheio de remorsos.
Olhando para ele de esguelha, Raryana respondeu:
- Nesse caso, aceito sua generosidade com imensa gratido. Quando vestiu 
a capa, pouco antes de sarem de casa, no havia
dvida de que lhe assentava muito bem.
A carruagem do marqus, puxada por quatro cavalos, estava  porta e, 
atrs dela, uma outra com Hignet e a bagagem. A valise de Raryana tambm 
estava com ele, e a moa no pde deixar de pensar como era pequena e 
inadequada, ao lado da pilha de malas do marqus.
Ela subiu a carruagem da frente e Osborne sentou-se a seu lado.
Ainda estava escuro, mas as estrelas se apagavam e a Lua j no podia 
competir com os postes de luz a gs, nas ruas.
Os cavalos partiram a trote rpido e Raryana reclinou-se no assento 
confortvel e bem estofado.
-  agora que comea a minha aventura! - disse, excitada. E acho... sim, 
acho que escapei! Apesar de tudo, estou lhe fazendo figa, pois todo o 
cuidado  pouco.
- Tem toda razo - respondeu o marqus, zombeteiro.
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CAPITULO II

Sentada na carruagem sacolejante, Raryana pensou, com satisfao, que 
escapara do tio e estava livre.
Ao mesmo tempo, achava que no estaria realmente segura, a no ser depois 
que seu navio deixasse Southampton.
Hignet tinha procurado para ela um compartimento reservado, que na 
realidade ficava ao lado do marqus, que tambm viajava s.
Tinham-lhe dado uma manta e ela tomou a sopa e o ch quentes de sua 
cesta.
Os vages eram novos e certamente superiores queles nos quais viajara 
com o pai, em outras partes do mundo.
Por outro lado, apesar da capa forrada de pele, fazia muito frio. Raryana 
sentia a ponta do nariz gelada e parecia haver corrente de ar por todos 
os lados. Tinha tirado o chapu, antes de chegarem  estao de Nine 
Elms, e puxado sobre a cabea o capuz da capa.
A pele do capuz emoldurava-lhe o rosto, tornando-a muito atraente, mas o
marqus no pareceu interessado.
- Hignet vai providenciar para que tenha todo o conforto disse ele, indo
depois para seu vago.
Raryana tentou dar a Hignet as vinte libras da passagem de primeira
classe at Southampton, mas o criado sacudiu a cabea,
- A senhorita  convidada de milorde. Tenho certeza de que ele no
gostaria que pagasse pela sua passagem.
A moa tentou insistir, mas viu que estava sendo tola. Ia precisar
27
de todo o dinheiro que possua e sabia que, quando chegasse a
Southampton, teria que vender uma das jias de sua me. A passagem para
Alexandria devia ser cara e tinha apenas alguns soberanos.
Quando se viu no vago, abriu a valise e tirou o estojo de jias.
Achou que tinha corrido um risco idiota, ao colocar as jias na valise 
que largara na calada, ao fugir do marqus.
E se nunca mais a encontrasse?
Se isto acontecesse, teria que voltar para a casa do tio e provavelmente 
seria castigada por tentar fugir.
Abriu o estojo e olhou com satisfao para as prolas, os brilhantes, os 
rubis e as safiras nos compartimentos de veludo. Sua me tinha herdado 
algumas das jias, principalmente os brilhantes maiores. Mas o marido 
havia sido muito generoso. Talvez por remorso, por deixar a mulher 
sozinha durante tanto tempo, ou por lev-la em viagens em que no havia 
conforto, ele sempre tentava compens-la com presentes caros.
Raryana olhou para as jias e achou que quase podia dizer quais eram os 
pases que representavam. O pai tinha trazido os rubis da ndia, quando a 
me ficara em casa, por ocasio do nascimento de Raryana. A jia tinha 
tambm prolas e brilhantes pequenos, alm de uma parte em esmalte, num 
trabalho que os artistas fizeram, durante geraes, para os prncipes 
rajput.
Lembrava-se de que as prolas tinham sido compradas na Prsia; as 
safiras, no Ceilo; as opalas, na Turquia. No gostava delas, 
compartilhando a superstio inglesa de que no davam sorte, mas gostava 
das turquesas, vindas de diferentes partes do Oriente. Embora no fossem 
as mais valiosas, eram, sem dvida, suas preferidas.
Vou vender um dos broches, pensou. Pegou um, em formato de meia-lua, com
brilhantes grandes de um branco azulado, que provavelmente lhe daria 
dinheiro suficiente para se manter durante meses.
Achando que era mais seguro, prendeu os broches no forro da capa e 
colocou no pescoo vrios colares, sob a gola de renda da
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blusa. Quanto s pulseiras, era mais difcil escond-las, de modo que as
enrolou num leno, colocando-as no bolso, junto com outros objetos.
Agora, mesmo que perdesse a valise, sua fortuna estaria a salvo.
Depois, sentindo frio porque tinha tirado a capa, abriu a cesta para 
comer um dos deliciosos sanduches e tomar um pouco de ch quente.
Na primeira parada, em Woking, Hignet veio saber se ela precisava de 
alguma coisa.
- No preciso de nada, obrigada.
- Est fazendo muito frio, senhorita.
- Estou contente por ter a manta e, naturalmente, a capa de lady Sarah.
- Logo vai sentir calor, quando o sol sair. E para ns ainda ser melhor, 
quando estivermos no iate do senhor marqus. Raryana pareceu interessada 
e Hignet explicou: - Atualmente,  o iate mais novo e mais veloz da 
Inglaterra. Chama-se Cavalo-Marinho. Estou ansioso para viajar nele, 
senhorita.
- No duvido.
- Ento, se no precisa de mais nada...
- No, obrigada. Mas, quando chegarmos a Southampton, ficaria grata se me 
arranjasse uma carruagem de aluguel.
- O senhor marqus me disse que a senhorita vai para o cais. Mas, como 
no h nenhum navio ancorado, posso sugerir que v para o Royal 
Cumberland?  onde milorde se hospeda, sempre que passamos uma noite em 
Southampton.
- Obrigada. Eu ia mesmo perguntar-lhe qual era o melhor hotel.
O guarda apitou. Hignet fechou a porta apressadamente e correu pela 
plataforma, em direo ao vago de segunda classe, onde viajava com a 
bagagem.
Era um homem sensato, disse Raryana a si mesma. Gostaria que o pai 
tivesse algum como ele a seu lado, nem que fosse para lhe lembrar que 
escrevesse para ela.
No acreditava na opinio do tio, isto , que seu pai tinha
morrido, embora fosse realmente muito estranho no receber notcias dele 
durante tanto tempo. Mas sabia perfeitamente como o pai ficava empolgado 
com uma nova descoberta ou uma nova escavao.
Nessas ocasies, ele parecia voltar ao passado. s vezes passava um dia 
inteiro sem comer, simplesmente porque isto no lhe ocorria.
Mesmo assim, nove meses era muito tempo para ficar sem se comunicar com a 
filha; a no ser,  claro, que estivesse em algum lugar isolado, onde no 
houvesse correio.
Fosse como fosse, ela descobriria. E convenceria o pai a no permitir que 
o tio Hardwin a obrigasse a casar contra a vontade.
Desde o momento em que fora morar com o tio, percebera que ele tinha 
certo antagonismo por ela.
Hardwin gostava de mulheres sem personalidade, que concordassem com tudo 
o que ele dizia. Dominava a esposa, a tal ponto que ela jamais se 
atreveria a manifestar uma opinio contrria  dele.
Habituada a discutir com o pai sobre assuntos dos quais o tio no tinha o 
mnimo conhecimento, Raryana no podia se conformar em ser a criatura 
apagada e tola que Hardwin desejava que fosse.
Por este motivo, ele tentou, de todas as formas, submet-la, domin-la, 
s faltando a violncia fsica, embora em certas ocasies quase chegasse 
a agredi-la. Pensou que o tio teria uma imensa satisfao em cumprir a 
ameaa de lhe dar uma surra, caso se negasse a casar com lorde Stroud.
O fato de ter sido pedida em casamento por aquele homem a apanhara de 
surpresa. Stroud muitas vezes ia  casa de Hardwin, mas o fazia por ser 
amigo dele. Embora procurasse a companhia de Raryana em festas e 
recepes, tendo, nos bailes, se oferecido vrias vezes para acompanh-la 
ao bufe, nem mesmo por um instante a moa o considerou um pretendente  
sua mo.
Na realidade, achava que s se interessava por si mesmo.
Ficou atnita, quando o tio a chamou ao escritrio para dizer que
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lorde Stroud a pedira em casamento e que ele havia dado seu 
consentimento.
- Casar com lorde Stroud! - exclamou Raryana, com espanto. jamais casaria 
com ele, nem que fosse o nico homem na terra!
Vai casar com ele, porque  o tipo de marido capaz de fazer
com que voc se comporte e capaz de dominar esse seu gnio irresponsvel.
Mais ainda: ele possui um ttulo e uma posio que fariam o orgulho de 
qualquer mulher.
- Qualquer mulher, menos eu! No estou interessada em ttulos, e 
certamente no vou casar com um homem que tem idade para ser meu pai!
Viu o rosto do tio ficar rubro de clera. Logo estavam gritando um com o 
outro, Raryana desafiando-o com uma violncia que disfarava bem seu 
medo. Depois de morar um ano em casa do tio, sabia que ele era um 
dspota, e to decidido a ver cumpridas suas ordens, que era difcil 
resistir-lhe.
Ficou imaginando o que ele pensaria quando lhe contassem que ela havia 
fugido e que havia uma corda pendurada em sua janela.
Nervosa, temendo que, no ltimo momento, o tio a impedisse de sair do 
pas, Raryana olhou para o relgio que guardava na valise, no uma, mas 
uma dezena de vezes.
A medida que se aproximavam de Southampton, o trem parecia ir mais 
devagar. Olhando pela janela, percebeu que era por causa do nevoeiro que 
vinha do mar. Era quase impossvel ver o que havia l fora.
Ficou desesperada, com medo de um atraso.
Depois pensou que, se era demorado para ela chegar a Southampton, seria 
ainda mais difcil para o tio, caso a estivesse perseguindo. Experimentou 
uma grande sensao de alvio, quando o trem entrou na estao, embora 
com atraso de uma hora.
Hignet veio ajud-la a desembarcar, j tendo providenciado um carregador 
para levar a valise.
- Se a senhorita for para a entrada, irei a seu encontro, assim que 
cuidar da bagagem do senhor marqus - disse, respeitosamente.
31
- Obrigada.
O marqus j estava na plataforma, muito elegante, com um sobretudo 
pesado, o chapu num ngulo petulante, que muitas mulheres achavam 
atraente.
Mas Raryana pensava apenas nos prprios problemas. Quando se aproximou do 
marqus, percebeu que estava taciturno.
- No h probabilidade de voc mudar de ideia e voltar para Londres, no 
? - ele perguntou.
- Nenhuma.
- Neste caso, s me resta desejar-lhe boa viagem, srta. Bartlett. Espero 
que, ao chegar ao Egito, encontre seu pai bem de sade.
- Obrigada, muito obrigada por ter me trazido at aqui. Sou-lhe realmente 
muito grata.
- Dei ordem a Hignet para procurar imediatamente uma carruagem para voc 
e depois voltar para apanhar minha bagagem.
Olhou para a valise de Raryana, com uma expresso que ela achou que era 
de desdm.
- Mais uma vez, obrigada - disse ela, fazendo uma ligeira reverncia.
O marqus tirou o chapu e se afastou.
Ao chegar  entrada da estao, Raryana viu que, com habitual eficincia, 
Hignet arranjara uma carruagem de aluguel.
- Eu disse ao cocheiro para lev-la para o Royal Cumberland, senhorita - 
disse o criado, ajudando-a a subir. Notando que ela ia abrir a bolsa, 
acrescentou: - Pagarei o cocheiro, senhorita. Espero que tenha uma boa 
viagem.
- Obrigada, Hignet.
Sorriu para o homenzinho eficiente. Quando a carruagem partiu, teve a 
impresso de que deixava um amigo.
Agora, estava completamente s.
Assim que a carruagem se afastou da estao, Raryana disse ao cocheiro 
que primeiro a levasse aos melhores joalheiros da cidade.
O marqus dirigiu-se para o cais, deixando que Hignet seguisse em outra 
carruagem, com a bagagem.
32
Tinha dado instrues a seu capito para que tivesse o iate pronto para
zarpar sempre que o desejasse. Era esta uma das condies do contrato.
Agora, ao ver o Cavalo-Marinho, o marqus notou, satisfeito, que parecia
pronto para partir, assim que o nevoeiro se dissipasse. Mas este ainda
estava muito denso. Subiu para bordo, cumprimentou o capito, contou-lhe 
seus planos e tornou a descer, voltando para a cidade, a fim de comprar 
livros, revistas e jornais, para l-los durante a viagem.
Como o iate era novo, Osborne ainda no tinha tido tempo de formar uma
boa biblioteca, como costumava fazer, sempre que viajava. Gostava de ler,
mas, quando se achava em Londres ou no campo, tinha tanta coisa a fazer, 
que pouco tempo lhe sobrava para ler.
Uma viagem por mar era a ocasio perfeita para atualizar a leitura. Na 
livraria, ficou satisfeito por encontrar vrios livros que havia muito 
tempo tencionava comprar.
Quando saiu, notou que o nevoeiro, longe de diminuir, se tornava ainda 
mais denso.
Estamos precisando  de vento, pensou.
Depois, sua experincia nutica fez com que compreendesse que 
provavelmente haveria vento, assim que a mar virasse.
A carruagem que alugara dirigiu-se lentamente para o cais. Enquanto as 
compras eram levadas para bordo, o marqus ficou observando o Cavalo-
Marinho.
No incio do ano, a Peninsular and Oriental Line tinha lanado o
Himalaya, um navio com parafusos de ferro que fazia com que todos os
outros navios parecessem antiquados. com grande coragem, dois anos antes,
o marqus decidira ter um iate desse tipo. Tinha visto a hlice com 
parafusos que havia sido introduzida pela Inman Line nos navios que 
atravessavam o Atlntico.
O exemplo foi logo seguido pelos alemes e pelos franceses. Os ingleses, 
que continuavam com seus mtodos tradicionais, finalmente se viram 
obrigados a acompanhar os outros e lanaram o Himalaya, o maior navio de 
seu tipo, no mundo.
33
O marqus fez com que seu iate fosse construdo no mesmo estaleiro.
O Cavalo-Marinho era grande, como iate particular, mas Osborne achava que 
o custo valia a pena, pois pretendia lev-lo para as regatas em Cowes, na 
ilha de Wight, e esperava que causasse sensao.
Mas no estava to interessado em impressionar seus amigos e rivais como 
em viajar com conforto.
Era um iate muito bonito, com sua reluzente pintura branca, dois mastros 
extras e uma bandeira tremulando na popa.
Satisfeito, o marqus subiu a bordo e ficou encantado ao entrar no salo.
Havia escolhido as cores, a moblia e os quadros com o mesmo cuidado em 
relao a detalhes que dava a suas casas e seus cavalos.
Hignet estava todo sorridente, quando lhe trouxe uma taa de champanhe. 
Sentado numa poltrona confortvel, o marqus ergueu a taa.
-  nossa viagem, Hignet, e espero que este barco nos faa conquistar 
outros mundos!
-  maior do que eu pensava, milorde, e parece que o senhor pensou em 
todos os detalhes.
- Espero que sim. Pelo menos, me deu bastante trabalho. Olhou para as 
vigias e perguntou: - Quando o capito acha que poderemos zarpar?
- A ltima vez que perguntei a este respeito, ele disse que espera que o 
nevoeiro se dissipe com a mudana da mar.
O marqus tinha pensado a mesma coisa e ficou contente por acertar.
- vou at a ponte, falar com o capito - disse, assim que terminou seu 
champanhe.
Tanto ele quanto Hignet sabiam que era uma desculpa para examinar o iate 
mais uma vez. Ele o vira ao ser lanado ao mar, mas ento a decorao 
ainda no estava completamente pronta. Por melhores que tivessem sido o 
desenho e a execuo dos planos, no havia nada mais satisfatrio do que 
a obra terminada.
34
O marqus foi para a ponte, onde no apenas conversou com o capito, como 
foi apresentado a vrios membros da tripulao. Eram vinte e cinco, ao 
todo, e suas acomodaes, muito mais modernas e confortveis do que as de 
qualquer outro barco onde tinham servido.
Todos se mostraram bastante entusiasmados com o Cavalo-Marinho.
- Quando vamos poder partir, capito?
- Estou apenas esperando que os ltimos mantimentos sejam trazidos para 
bordo, milorde. Depois, acho que poderemos sair lentamente da baa. 
Conheo esta parte do mundo como a palma da minha mo e estou disposto a 
tentar, se o senhor estiver de acordo.
- Por mim, quanto mais cedo, melhor. Mas no v bater num rochedo, 
capito.
Era uma brincadeira, naturalmente, e o capito riu, antes de responder:
- Orgulho-me demais do barco para poder fazer isso, milorde. Osborne 
desceu.
Tirou o sobretudo e o chapu, entregou-os a Hignet e sentou-se para ler 
os jornais.
No pde deixar de sentir certa excitao, quando as mquinas comearam a 
pulsar, e dali a pouco percebeu que o barco saa lentamente da baa.
Imediatamente, largou os jornais e foi para a ponte de comando.
Quando o iate j se afastava de Southampton, o nevoeiro se dissipou e o 
plido Sol de janeiro comeou a espiar por entre as nuvens.
O marqus passou o resto do dia na ponte, ou sentado no salo, lendo os 
jornais e depois um dos livros que comprara em Southampton.
Apesar de tudo, seus pensamentos voltavam constantemente para o episdio 
da vspera, e ficou imaginando o que lorde Shangarry teria pensado 
quando, ao ir  sua casa em Grosvenor Square, descobrira que a presa 
tinha fugido.
Imaginou, com satisfao, o desapontamento e a raiva que
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Shangarry devia ter sentido ao ver que seu plano de chantagem havia 
abortado e que a esperana de conseguir uma boa soma em dinheiro se 
desvanecera.
Ao mesmo tempo, Osborne estava furioso por ter sido enganado por Inez. 
Era obrigado a reconhecer que acreditara em suas juras de amor. A no ser 
que ela fosse muito boa atriz, tinha, de fato, sentido atrao fsica por 
ele. Mas a verdade era que, o tempo todo, ela e o marido planejavam uma 
armadilha.
Era uma coisa que o marqus jamais perdoaria e da qual nunca se 
esqueceria.
De todas as mulheres que o haviam perseguido e depois sido postas de 
lado, quando delas se cansara, nenhuma se mostrara vingativa e, pelo que 
lhe constava, nenhuma lhe tinha dio pelo rompimento.
Mas Inez Shangarry agira de maneira tortuosa. No havia dvida de que 
gostava de fazer amor com ele. Nenhuma mulher podia fingir to bem. Por 
outro lado, mancomunada com o marido, ela lhe preparara uma armadilha 
para arrancar o mximo de dinheiro possvel.
- Miserveis! - murmurou. - Por que ainda estou pensando neles? Fiz papel 
de tolo e isto servir de lio, para que tenha mais cuidado, no futuro.
Mas sabia que, embora Inez tivesse ferido seu amor-prprio, levaria algum 
tempo para esquec-la.
Mal pensou em Raryana. Tinha feito o possvel por ela, trazendo-a para 
Southampton. Aquela hora, j devia estar num navio, rumo ao Egito, com 
uma autoconfiana e uma auto-sufcincia que tinham qualquer coisa de 
pouco feminino.
Eis a uma moa moderna, pensou. Disposta a viajar sozinha pelo mundo, 
dispensando a proteo de um homem e considerando-se independente de um 
jeito quase masculino. com certeza, vai acabar sendo uma machona, 
explorando o deserto num camelo ou tentanto converter os bedunos ao 
cristianismo!
Depois, ao lembrar-se dos olhos grandes de Raryana e de sua aparncia 
frgil, riu de sua fantasia.
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Arrependeu-se de no ter perguntado quais os navios que estavam de 
partida nem ter mandado Hignet reservar uma cabine nara ela. Mas, afinal, 
isso no era de sua conta e a ltima coisa que desejava no mundo era se 
envolver com uma herdeira cujo desaparecimento provavelmente iria 
provocar um escndalo.
Queimara os dedos uma vez, no ia queim-los de novo.
Durante a tarde, cochilou um pouco e s voltou ao camarote na hora de se 
vestir para jantar.
Hignet tinha preparado tudo de acordo com o gosto do patro. Ao lado do 
camarote luxuoso, havia um banheiro particular, uma inovao que poucos 
iates possuam.
O marqus tomou banho e depois, vestido to elegantemente como se fosse 
jantar no clube com um grupo de amigos, foi para o salo. O chef, 
escolhido por ele com o mesmo cuidado com que escolhera o capito, 
apresentou uma refeio de primeira qualidade. O marqus jamais tinha 
comido lagostas to deliciosas, nem codornas preparadas exatamente do 
jeito que ele apreciava. Os vinhos vinham de uma adega digna do melhor 
dos conhecedores.
Os dois empregados que o serviam eram bem treinados. Terminada a 
refeio, o marqus achou que acertara, contratando homens experientes, 
que j haviam trabalhado em grandes transatlnticos ou para algum dono de 
iate to exigente quanto ele.
Os criados tinham tirado a mesa, e o marqus, voltado ao livro que 
estivera lendo durante o dia, quando Hignet entrou no salo.
- Perdo, milorde, mas aconteceu algo que acho meu dever comunicar-lhe.
- Que aconteceu?
Notou que Hignet estava perturbado e isto o surpreendeu, porque 
geralmente seu criado de quarto era a calma em pessoa.
- Gostaria de mostrar-lhe o que encontrei, se o senhor quiser me 
acompanhar.
Curioso, o marqus levantou-se e seguiu Hignet. que o levou pelo 
corredor, na direo do camarote do patro.
Pouco antes de chegarem l, o criado abriu a porta de uma cabine 
reservada aos convidados.
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Era muito bem decorada. No centro, havia uma cama de metal dourado e o 
resto da moblia era composto de peas muito finas, de pau-rosa.
O quarto parecia vazio, e o marqus ficou imaginando o que Hignet 
pretendia lhe mostrar. O criado abaixou-se e levantou a borda da colcha 
de damasco que cobria a cama at o cho.
- Veja, milorde.
com espanto, Osborne notou que havia algum deitado no escuro, embaixo da 
cama, algum que parecia dormir a sono solto.
No foi preciso olhar muito para ver de quem se tratava.
Reconheceu os cabelos louros sobre o travesseiro que Raryana devia ter 
tirado da cama e a capa de veludo preto, forrada de pele. A seu lado, no 
cho, escondida embaixo da cama, estava a valise que o marqus conhecia 
muito bem. Assim como a bolsa.
Fitou a moa por um momento e depois disse, asperamente:
- Hignet, acorde a srta. Bartlett e diga-lhe que v me procurar no salo.
No esperou resposta: dirigiu-se para o salo, sentindo sua clera 
crescer a cada minuto que passava.
Como  que aquela moa se atrevia a agir assim? Como ousava vir para o 
iate e impor sua presena?
S Deus sabia que ele no a encorajara de modo algum, e agora estava com 
aquele peso nas costas!
Achou que a nica coisa a fazer era desviar o curso do iate e fazer com 
que ela desembarcasse em Plymouth, ou talvez em Cherburgo.
Que topete! Que incrvel topete!, pensou, furioso.
Ainda estava de cara fechada, quando, minutos depois, a porta do salo se 
abriu e Raryana entrou.
Usava o mesmo casaquinho justo da vspera, mas estava sem chapu, e seus 
cabelos pareciam muito louros e um tanto em desalinho.
Os olhos estavam arregalados e apreensivos, mas manteve a cabea erguida, 
ao se dirigir para o marqus.
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Ele no fez meno de se levantar, esperando que ela se aproximasse.
E ento? - perguntou, asperamente. - O que tem a dizer sobre sua atitude?
Desculpe... mas no pensei que me encontrasse... to
depressa.
Que tem uma coisa a ver com a outra? Mais cedo ou mais
tarde, voc seria descoberta. Deixe-me dizer que considero um 
atrevimento, uma invaso de minha intimidade, um abuso, vir para meu iate 
sem ser convidada!
- Peo... desculpas. - O barco balanou e ela procurou se apoiar na mesa. 
- Posso... me sentar?
- Creio que sim - respondeu o marqus, a contragosto. - J que tomou a 
liberdade de se comportar como bem entende, meu consentimento no  
necessrio para voc agir como quiser em meu barco.
- Tive que vir - murmurou Raryana. - No havia nenhum navio para o 
Mediterrneo, a no ser depois de amanh. At l... meu tio podia me 
encontrar.
- Isso no  problema meu.
- Fui para o hotel, mas disseram que estava cheio. Creio que no me 
queriam l... por eu estar sozinha.
Osborne ficou em silncio, refletindo em que tal ideia no lhe havia 
ocorrido. Realmente, tinha sido uma falha, de sua parte, no avisar 
Raryana de que nenhum hotel respeitvel receberia uma moa de sua idade, 
desacompanhada e trazendo apenas uma valise. Ela parecia to confiante, 
to senhora de si, que ele no imaginara que tal coisa pudesse acontecer.
Por um momento, quase se recriminou por no ter considerado a 
possibilidade de Raryana no encontrar acomodaes. Depois, ao se lembrar 
de que ela lhe impunha sua presena, ficou de novo zangado.
- Eu lhe disse para voltar para casa e parar de agir dessa maneira 
ridcula. Se estava to interessada em sair da Inglaterra, devia ter 
tomado um navio para a Frana.
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Achou que havia lavrado um tento, sugerindo essa alternativa Ento, quase 
humildemente, Raryana disse:
- Eu no tinha... dinheiro suficiente.
- Est dizendo que se meteu nessa aventura louca sem pensar em quanto lhe 
custaria?
- No, claro que no. Naturalmente, eu no tinha dinheiro vivo, mas 
pensei que fosse fcil vender as jias de minha me. Mas, quando fui s 
joalherias, ningum quis comprar meu broche. Acho que pensaram que eu o 
havia... roubado.
O marqus se levantou e andou pela sala, como se s assim pudesse 
controlar a irritao.
- Nunca ouvi uma histria de tamanha incompetncia. Depois de se meter 
nessa embrulhada, por que imaginou que eu a salvaria?  o que est 
querendo, no ?
Quase gritou estas palavras. Dali a um momento, Raryana disse:
- Era... assustador. Eu no sabia que fazer... e um homem falou comigo...
- Eu lhe disse que era perigoso uma jovem andar sozinha pelas ruas.
- Ento, achei que a nica maneira de me sentir segura era vir para sua 
companhia. No vou dar trabalho, ficarei to quieta, que at vai se 
esquecer de que estou a bordo.
- Acha isso possvel? Seja como for, no pretendo viajar com uma 
passageira indesejvel. A questo  se vou fazer com que desembarque em 
Plymouth ou em Cherburgo.
Como ela no respondesse, o marqus perguntou, rude:
- Ento, onde vai ser?
Raryana juntou as mos e fitou-o com ar de splica.
- Por favor, leve-me para um pouco mais longe. Se me deixar em Cherburgo, 
terei que ir para Marselha. Fiz essa viagem com papai, uma vez, e  muito 
incmoda. Acho que vou ter medo, sozinha...
- Pois seria bem feito! Talvez fizesse com que criasse juzo e voltasse 
para a casa de seu tio.
- E para casar com lorde Stroud? Nunca!
No pode andar vagando pelo mundo, sem dinheiro. Como
lhe disse antes, no imagina os perigos que a esperam.
Estou comeando a compreender. O homem que me abordou
na rua era horrvel! Sa correndo, mas achei que ele podia vir atrs
de mim. Meu Deus! Haver algum homem mais atormentado pelas
mulheres do que eu? Por que hei de aguentar esta ridcula situao? Voc 
no  responsabilidade minha. Nunca a tinha visto, at ontem  noite, e, 
quando chegamos a Southampton, esperava nunca mais
tornar a v-la.
- Nem eu tinha vontade de v-lo de novo! - rebateu Raryana, como se no 
pudesse se impedir de dizer isto. - Se pensa que estou correndo atrs de 
voc porque  um homem atraente, engana-se redondamente! Escondi-me em 
seu iate simplesmente por medo de que tio Hardwin estivesse a minha
procura! No tive outro motivo. No se vanglorie, pensando que tenho
segundas intenes a seu respeito!
Raryana falou com tanta rudeza que o marqus a olhou, surpreso. Depois,
como ela lhe lembrasse um filhote de tigre, ele riu.
- Pelo menos, estamos sendo francos um com o outro. Estranhamente, no 
estava mais zangado. Sentou-se de novo e continuou: - Precisamos discutir 
isso de maneira sensata. Como sei que voc no jantou e provavelmente 
tambm no almoou, acho melhor mandar vir qualquer coisa para comer.
- Depois de tudo o que me disse, acho que a comida iria ficar entalada na 
minha garganta!
- Duvido. Nesse meio tempo, permita que lhe oferea uma taa de 
champanhe. Acho que, depois de tudo por que passou, voc est precisando 
de um estimulante.
Levantou-se e foi at o canto do salo, onde havia uma garrafa de 
champanhe aberta, num balde de gelo fixado no cho para que no se 
movesse com o balano do barco.
Serviu uma taa e entregou-a a Raryana. Depois, tocou a campainha.
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- Agora que est sendo bonzinho comigo, estou ficando desconfiada. 
Pretende me jogar no mar?
O marqus no pde deixar de rir.
-  uma ideia. Mas essa soluo no me havia ocorrido.
- Sempre achei que o mar  o melhor lugar para a gente dispor de uma 
coisa indesejada.
- Sabe nadar? - Raryana fez que sim. - Eu devia ter desconfiado! Ento, 
voc nadaria at a praia, ou iria nas costas de um delfim, e me acusaria 
ao magistrado. Acho que  uma feiticeira, que aparece montada em sua 
vassoura, nas horas mais imprprias!
Antes que Raryana respondesse, um empregado surgiu  porta.
- Diga ao chef que prepare uma refeio para uma jovem faminta - ordenou 
o marqus. - E avise o capito de que preciso falar com ele. - Notou a 
expresso da moa e hesitou por um momento. Antes que o criado sasse, 
disse ainda: - No incomode o capito. Irei procur-lo mais tarde.
Depois que a porta se fechou, Raryana inclinou-se para o marqus.
- Por favor, leve-me alm de Cherburgo. Prometo no dar trabalho nem 
aborrecer.
- Aborrecer? Voc no fez outra coisa, desde o momento em que a conheci.
- Sei disso, mas a culpa no  minha. No , mesmo.
- Isso  uma questo de opinio. Mas que uma coisa fique bem clara: no 
pretendo ir at Alexandria.
- Pode me deixar em Gibraltar. Estive l duas vezes, com papai. Na ltima 
vez, eu tinha dez anos, mas no creio que a cidade tenha mudado muito.
Ocorreu ao marqus que ela devia ter corrido menos risco aos dez anos que 
aos dezoito, considerando-se a guarnio que estava estacionada l na 
poca.
Apesar destas consideraes, ele apenas disse:
- vou pensar.
Houve silncio, e dali a minutos Raryana perguntou:
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No est mais zangado como antes, est?
Fiquei zangado quando a vi. Muito zangado mesmo. Para
dizer a verdade, se eu no fosse um homem civilizado, a teria atirado ao 
mar, que  o que voc merece.
Ela riu e, pela primeira vez, o marqus notou que tinha duas covinhas nas 
faces.
- Tenho a impresso de que  o tipo de homem que pensa primeiro e age 
depois. Eu sou o contrrio: ajo primeiro e penso depois.
- Eu devia ter adivinhado! - comentou, sarcstico.
- Espero que no pense que me arrependi de ter fugido. Estou contente, 
muito contente, por ter escapado do tio Hardwin. Acontea o que 
acontecer, por mais difceis que sejam as coisas, no voltarei.
- Creio que sabe que, quando o dinheiro que conseguir com a venda das 
jias acabar, ter que avisar seu tio, se precisar de mais. 
Provavelmente, ele cuida de sua fortuna e pode recusar a lhe dar at 
mesmo um nquel, a no ser que voc volte para casa.
- A renda de minhas jias vai durar muitos meses. Mas, se eu no 
encontrar papai a tempo, trabalharei para ganhar dinheiro.
- Parece muita pretenso. Que espcie de trabalho acha que pode fazer?
- Oh, arranjarei qualquer coisa, assim que chegar ao Egito. Para comear, 
sei falar rabe.
- Sabe mesmo?
- Claro! Sempre ajudei papai, escrevendo suas cartas para as autoridades. 
Acontece que conheo uma poro de lnguas, embora algumas no muito bem, 
como turco, por exemplo, que acho muito difcil, mas o rabe e o persa 
so lnguas que falo desde criancinha.
- Estou ainda mais admirado!
- S porque voc odeia as mulheres, no quer dizer que sejamos umas 
cabeas ocas. Talvez tenha conhecido as mulheres erradas!
O marqus refletiu em que isto bem podia ser verdade.
- O que quer dizer com "erradas"?
43
Aquelas que correm atrs dos homens, lisonjeando-os.
adulando-os - respondeu Raryana, mordaz.
Ele riu.
Quando a moa terminou o jantar, o marqus percebeu que tinha rido vrias
vezes das coisas espirituosas que ela havia dito. Raryana podia ser
irritante, e ele a considerava assim no que lhe dizia respeito, mas, sem 
dvida, tinha um jeito original de encarar a vida e dava sua opinio de 
um modo que ele no tinha visto em mulher alguma.
Naturalmente, estava habituado com mulheres que se esforavam para ser 
divertidas e interessantes, usando de todos os artifcios femininos, mas 
a verdade  que a conversa geralmente girava em torno delas mesmas. Achou 
estimulante, e ao mesmo tempo um desafio, conversar com uma moa que 
dizia francamente que no gostava dele como homem.
Apesar de tudo, demonstrava ter grande confiana nele.
Depois que tiraram a mesa, o marqus sentou-se com um copo de conhaque na 
mo e disse:
- Agora, precisamos resolver seu caso. Se eu concordar em lev-la at um 
pouco mais longe, me d sua palavra de honra de que no far uma cena, 
quando eu a fizer desembarcar?
- Deve saber que a palavra de honra de uma mulher no  igual a de um 
homem.
- Que quer dizer com isso?
- As mulheres no precisam se comportar como os cavalheiros. Por exemplo, 
no tm que pagar suas dvidas de jogo, por medo de serem boicotadas no 
clube. Podem escutar clandestinamente atrs de portas, ler as cartas de 
outras pessoas sem que as desafiem para um duelo, ou seja l o que for 
que os homens fazem nessas circunstncias!
O marqus tornou a rir.
- Ento, se no reconhece meu cdigo de honra, qual  o seu? Raryana 
refletiu um momento.
- Eu nunca machucaria algum que no tivesse me machucado. Pelo menos, 
no intencionalmente. Nunca falaria pelas
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costas de uma pessoa o que no estivesse pronta a falar na frente, e 
nunca, a no ser que fosse absolutamente necessrio, mentiria!
- Ento, sobre o que est disposta a jurar? Ela lanou-lhe um olhar 
petulante.
- Que um raio me fulmine!
- No considero esse juramento muito srio.
- Oh, mas , sim! No tenho vontade de morrer, ainda no! H muitas 
coisas que desejo fazer na vida.
- Muito bem. Ento, que um raio a fulmine, se fizer uma cena, quando eu
achar que deve desembarcar.
Raryana inclinou a cabea.
- Acho isto meio ambguo. Suponhamos que voc escolha a ilha do Diabo ou 
algum deserto, no Pacfico, onde s existam cobras e siris imensos?
- Est a outra ideia que no levei em considerao. Depois de passar um 
ano num lugar desses, talvez voc at acolhesse com prazer a chegada de 
um homem, fosse quem fosse.
- Creio que tem razo. Mas j pensou como  que voc se arranjaria num 
mundo sem mulheres? Afinal, precisa encarar o fato de que no haveria 
ningum para admir-lo, a no ser voc mesmo.
Havia no olhar dela um brilho to malicioso, que o marqus respondeu, 
irritado:
- Se falar comigo desse jeito, sou bem capaz de imitar seu tio e ameaar 
lhe dar uma surra.
- Duvido de que fizesse uma coisa to drstica. Primeiro, voc 
refletiria; depois, acharia que no  uma atitude digna... ou, talvez, 
que iria amassar seu palet to elegante e to bem talhado.
Como voc passou a noite acordada, acho que, quanto mais cedo for para a 
cama, melhor! E deixe-me lembrar-lhe, srta. Bartlett, de que prometeu me
incomodar o mnimo possvel e no dar trabalho nesta viagem! - Fez uma
pausa e acrescentou com firmeza: - Tomaremos as refeies juntos, mas
sugiro que, o resto do tempo, me deixe em paz. Tenho muito que fazer e
acho que, para voc, seria bom refletir sobre o passo srio que est
dando.
- Claro que no tenho alternativa, a no ser aceitar, menos
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quanto a isso de "refletir". Se no me emprestar alguns livros, no terei 
nada que fazer e ficarei muito entediada.
- Pode escolher  vontade. Depois que acabar um livro, Hignet o trocar 
por outro, enquanto houver livros em minha biblioteca!
Raryana aproximou-se da mesa onde estavam os livros que ele comprara em
Southampton. Pegou um, depois outro, enquanto o marqus a observava.
- Quase todos so sobre guerra - disse ela. Creio que os homens gostam de
ler sobre batalhas, quando no esto metidos em nenhuma delas.
- O que esperava? Romances de amor?
- No, nada disso! vou levar este aqui.
Era um livro que o marqus achava que devia ser um tanto maante, sobre a 
ambio da Rssia em relao ao Afeganisto.
- Acha que vai gostar? - perguntou, surpreso.
- O Afeganisto  um lugar que sempre desejei visitar respondeu, sria. - 
Acho que, depois que encontrar papai, posso convenc-lo a me levar at 
l. Isto , se ele ainda estiver vivo.
Havia na voz dela uma nota que fez com que Osborne pensasse que, no 
ntimo, estava de fato amedrontada.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa para tranquiliz-la, Raryana 
dirigiu-se para a porta, virou-se e fez uma reverncia.
- Que um raio me fulmine! - jurou de novo. - Darei o mnimo trabalho 
possvel. Procure no pensar em mim. Odiar uma pessoa pode dar 
indigesto!
Saiu e fechou a porta, sem dar chance ao marqus de encontrar uma 
resposta adequada. Percebeu que, a contragosto, estava rindo novamente.
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CAPITULO III

Durante os trs primeiros dias, Raryana obedeceu s regras estabelecidas.
Aparecia ao almoo e ao jantar, mas, assim que a refeio terminava, 
fazia uma reverncia para o marqus e se retirava para sua cabine.
Hignet arranjou para ela um lugar no convs onde no ventava e onde podia 
ficar sem incomodar Osborne e sem ser vista por ele.
Durante as refeies, era espirituosa e provocante. Quando ia para a 
cama, o marqus muitas vezes percebia que ficava relembrando as coisas 
engraadas que a moa havia dito. Jamais havia discutido to vivamente 
com uma mulher sobre assuntos abstratos.
Discordava dela continuamente, quando, por exemplo, Raryana dizia que as 
mulheres deviam ter o direito de fazer as coisas sem serem guiadas ou 
protegidas por um homem. Ela afirmava tambm que, quando uma mulher 
trabalhava para ganhar a vida, devia ter o mesmo salrio do homem que 
ocupasse cargo semelhante.
- Voc nunca encontrar um patro que concorde com isso disse o marqus, 
com ar de desdm. - Nenhuma mulher trabalha to bem como um homem.
- Claro que isso depende do tipo de servio. H mulheres que trabalham em 
fbricas de tecidos e produzem tanto quanto os homens, mas ganham a 
quarta parte. No  justo!
- As mulheres conseguem emprego porque ganham menos 47
declarou o marqus, em tom firme. - Se fossem ganhar o mesmo salrio, 
jamais encontrariam trabalho.
Se ele procurava argumentos para combater as afirmativas de sua 
passageira, tambm Raryana passava grande parte do tempo pensando em 
assuntos para desafi-lo. Gostava dos debates, e h muito tempo no se 
divertia tanto.
Estar na companhia do marqus era muito diferente de ouvir o tio 
pontificando e no permitindo que outra pessoa manifestasse opinio.
Percebeu que o marqus era muito inteligente. Melhor ainda, seus 
conhecimentos eram muito mais vastos do que se esperaria de um homem da 
alta sociedade.
A experincia de Raryana com os rapazes que conhecera nos bailes aos 
quais a tia a levava, ou com os que visitavam a casa de lorde Hardwin, 
tinha feito com que acreditasse que os cavalheiros s se interessavam por 
esporte, caadas e, de certo modo, mexericos.
Desde pequena, conhecera homens que se aprofundavam no estudo de 
Histria. Devido ao fato de seu pai ser muito conceituado no mundo da 
arqueologia, eles eram recebidos, em todos os pases que visitavam, por 
estadistas, historiadores e escritores, e Raryana os ouvia com grande 
interesse.
Tinham viajado tanto, que a educao da moa era algo precria em certos 
aspectos.
- Minha aritmtica  deplorvel! - disse ela ao marqus, com toda 
franqueza. - A no ser que eu esteja lidando com o dinheiro dos pases
que visito, pois nisto sou especialista! Mame sempre dizia que no sou 
dotada.
O que ela queria dizer com isso? Embora eu no saiba do que se trata, 
estou inclinado a concordar.
Raryana fez uma careta para ele, antes de responder:
- Mame foi criada com a ideia de que todas as mulheres deviam aprender 
piano e estar prontas a tocar, depois de algum jantar oferecido aos 
amigos. Deviam tambm costurar, pintar aquarelas e saber arranjar vasos 
de flores.
E voc no sabe nada disso?
Francamente, acho que voc no gostaria de me ouvir tocar
piano. Detesto aquarelas, mesmo quando pintadas por outras pessoas. E 
gosto muito mais de ver as flores nos jardins do que espetadas num vaso!
- E quanto a costura?
- Nisso, sou bastante razovel, mas no posso dizer que goste. O marqus 
sacudiu a cabea.
- Acho que voc  um caso perdido. Jamais arranjar um marido.
- Pode ter certeza disso. No tenho a menor vontade de ser uma esposa 
tratada como uma marionete, que s se move quando algum puxa os cordes.
- Talvez encontre um homem bastante tolo para trat-la como igual - o 
marqus provocou.
- Voc quer dizer: que seria condescendente comigo. No tenho a mnima 
inteno de ser tratada com condescendncia, muito menos por algum do 
seu sexo.
- A princpio, achei que voc parecia um filhote de tigre, mas agora vejo 
que me enganei.  um porco-espinho, todo eriado!
- Antes ser um porco-espinho do que ser aquilo a que meu tio me 
comparava.
- Que comparao era essa?
- Assim como a maioria dos homens, ele preferia os cavalos s mulheres e 
sempre se referia a mim como "potro selvagem".
- Acho que no estava muito longe da verdade.
Os olhos de Raryana fuzilaram de clera. Depois, ela riu.
- Est querendo fazer com que me zangue. Se eu fosse de fato um filhote 
de tigre, j o teria mordido, meu senhor!
Essa troca de perguntas e respostas cheias de vivacidade era entremeada 
por conversas srias a respeito das religies orientais, das escavaes 
feitas pelo pai dela e especulaes sobre se algum dia algum descobriria 
onde nascia o Nilo Branco.
- Voc j subiu o Nilo? - perguntou Raryana. O marqus fez que no.
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- Sempre tive vontade de conhecer o Cairo, mas parece que nunca tenho 
tempo.
Raryana fitou-o e Osborne percebeu o que ela estava pensando.
- Se acredita que agora  uma tima oportunidade de eu ir, esquea! - 
disse ele. - Pretendo ir a Argel, onde mora um amigo meu que no vejo h 
muitos anos.
- E vai me levar at l?
- Depende de seu comportamento. Caso no se comporte direitinho, sou 
capaz de deix-la em Oporto, ou, como voc sugeriu, em Gibraltar.
- Serei muito, muito boazinha.
Realmente, ela estava dando bem pouco trabalho. Embora detestasse 
reconhecer isso, ele bem que apreciava ter algum com quem conversar s 
refeies. Mais ainda: Raryana gostava da comida apresentada pelo chef, 
com um apetite e um conhecimento culinrio que ele jamais tinha 
encontrado em mulher alguma. Por vaidade, para ter cinturinhas finas, 
elas usavam espartilhos to apertados que mal podiam comer.
Embora as senhoras mais velhas fossem anfitris experientes e, sem 
dvida, orientassem seus chefs sobre o que servir, o mesmo no se podia 
dizer das mais jovens e mais frvolas.
O marqus achava que, na maior parte das vezes, a comida servida nas 
casas para as quais o convidavam era insossa e pouco apetitosa.
Sabia que ele era uma exceo, no s por apreciar a boa mesa, como por 
exigir que todos os pratos servidos em sua casa fossem preparados com a 
maior arte.
- Quero qualidade, e no quantidade! - costumava dizer. Raryana , sem 
dvida, uma criatura original, pensou. Afastou-a
depois do pensamento e foi falar com o capito, na ponte de comando.
- Receio que vamos ter mau tempo, milorde.
- Eu esperava mesmo que, nesta poca do ano, a baa de Biscaia estivesse 
turbulenta.
- Parece que teremos um temporal.
- Tenho certeza de que o Cavalo-Marinho aguentar.
- Claro, milorde! Tambm no tenho a mnima dvida. Mas um tufo, nesta 
poca do ano, pode ser muito desagradvel, e temos uma senhora a bordo.
O marqus quase disse que pouco estava ligando para Raryana e que, se ela 
se sentisse mal, seria bem feito!
No dia seguinte, ao acordar, viu que as previses do capito se 
realizavam. Um vento forte, vindo do norte, encrespava as guas.
Embora o Cavalo-Marinho fosse maior do que a maioria dos iates, at mesmo 
um do tamanho do Himalaya teria sido pouco confortvel, nas condies em 
que o mar estava agora.
O iate jogava de tal forma, que era difcil andar a bordo. Preparar a 
comida, ento, estava fora de cogitao.
Na hora do almoo, Hignet levou uns sanduches para o marqus. Tendo
grande experincia no mar, levou-os, no numa bandeja, mas numa cesta,
para que no cassem enquanto ele procurava manter o equilbrio,
caminhando pelo convs.
O marqus comeu os sanduches, tomou uma taa de champanhe e, como no
havia sinal de Raryana, foi para a ponte.
Achava fascinante observar o iate lutar contra a fora dos elementos.
Sabia que muitos barcos pequenos afundavam na baa de Biscaia, todos os
anos. Mais, enquanto as grandes ondas se quebravam sobre a popa do
Cavalo-Marinho, ele pensava, com orgulho, que tinha de fato mandado
construir um navio de primeira qualidade, que poderia enfrentar uma
tempestade, por pior que fosse.
Quando Raryana no apareceu para o jantar, ele perguntou a Hignet se a
moa estava passando bem.
- Creio que sim, milorde. H duas horas, perguntei se queria comer alguma
coisa. Respondeu que estava bem e no queria nada.
- Ela no almoou?
- No, milorde.
- com certeza, est com enjoo - disse o marqus, sorrindo.
- No  de se admirar. O capito me disse que vrios marinheiros esto
passando mal.
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O senhor  que tem sorte. Esteja como estiver, o mar no o
afeta, milorde.
- O mesmo posso dizer de voc.
O jantar foi um pouco diferente do almoo, mas, como ainda era impossvel 
cozinhar, o marqus teve uma refeio fria.
- Acho que logo vamos sair desta, Hignet. Em todo caso,
amanh o vento ter amainado.
- Uma vantagem de ter um barco to veloz, milorde,  que levaremos muito 
menos tempo do que nas outras vezes para
atravessar a baa. -  verdade - respondeu o marqus, satisfeito.
Quando ficou sozinho, pegou um livro, mas o navio jogava tanto
que ele resolveu ir dormir.
Ao passar pela porta da cabine de Raryana hesitou. Se estivesse enjoada, 
como era de se supor, devia ter pedido ajuda ou mesmo um copo de 
conhaque, o que era indicado naquelas circunstncias. Aps uma ligeira 
hesitao, Osborne bateu  porta. No houve resposta. Depois de esperar 
um pouco, ele virou a maaneta de mansinho, achando que talvez ela 
estivesse dormindo.
Notou que a cama estava vazia. Depois viu Raryana no cho, toda 
encolhida, com o rosto escondido nas mos.
Por um momento, pensou que talvez estivesse machucada e inconsciente; que 
tivesse quebrado um brao ou uma perna. Aproximando-se com dificuldade, 
percebeu que ela tremia.
- Que aconteceu? - Ajoelhou-se no cho e virou o rosto da moa para seu 
lado. - Que aconteceu? Est doente?
Ela descobriu o rosto plido e olhou para ele. Os olhos pareciam mais 
escuros e as pupilas estavam dilatadas.
O marqus fitou-a por um momento e depois disse, atnito:
- Voc est com medo!
Raryana murmurou qualquer coisa e, de repente, atirou-se nos braos do 
marqus e escondeu o rosto em seu ombro.
Osborne abraou-a maquinalmente e sentou-se no cho, ao lado
dela. A moa tremia violentamente e usava apenas uma camisola. Seu
corpo era delicado e imaturo. Nunca o marqus tinha visto uma pessoa 
tremer tanto.
- Est tudo bem - disse, confortando-a.
- Vamos... afundar?
Ele mal pode ouvir as palavras, pronunciadas contra seu ombro.
- Garanto-lhe que se isso acontecer, pedirei ao estaleiro que devolva meu
dinheiro. O Cavalo-Marinho tem garantia de ser a prova de tempestades!
Falou em tom de brincadeira, esperando que isto a acalmasse. Raryana 
agora j no tremia tanto, mas continuava com o rosto escondido no ombro 
dele.
- Estou... com medo. No posso... evitar. Sempre tive medo de 
tempestades.
-  compreensvel. E esta  das piores. Mas garanto-lhe que vamos venc-
la. O capito acha que, amanh, o vento j ter amainado.
Percebeu que ela se agarrava  lapela de seu palet, com a fora do 
desespero. De repente, os dedos se afrouxaram, e ela deu um suspiro de 
alvio.
- Estou... envergonhada.
- Isto  muito compreensvel... numa mulher! - ele provocou.
Raryana deu uma risadinha, e o marqus continuou:
- Claro que estou encantado por ver que, sob esse seu aspecto agressivo e 
independente, existe um trao essencialmente feminino. Est com medo e se 
agarrou a mim exatamente como qualquer mulher normal faria, em 
circunstncias semelhantes.
A moa se retraiu e olhou para ele.
- Isso no  esportivo: bater numa pessoa que est por baixo!
- No estou mesmo me comportando como um cavalheiro, mas voc me disse 
muitas vezes que quer estar em termos de igualdade com os homens.
Raryana fez um gesto, como para se libertar, mas o barco jogou 
violentamente e, com um gemido abafado, ela agarrou a lapela do palet do 
marqus.
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Ele sorriu e disse:
- Voc est achando as coisas piores do que realmente so, porque no 
comeu nem bebeu nada, hoje. vou ajud-la a se deitar e insisto em que 
coma alguma coisa e tome uma taa de champanhe, se Hignet conseguir 
traz-la at aqui.
-  muito... trabalho - murmurou.
Sabia que a moa estava fazendo um esforo para parecer natural.
- Sempre me ensinaram que nada  trabalho demais, quando se trata de uma 
mulher. Depois disto, terei certeza de que voc  mulher e no tem nada 
de masculino.
com dificuldade, conseguiu ajud-la a entrar na cama. Raryana puxou as 
cobertas at o queixo e olhou para ele, amedrontada.
O marqus sentou-se na cama e ela agarrou sua mo, como se fosse uma 
tbua de salvao.
- vou tocar a campainha, chamando Hignet. Ele tem muito mais experincia 
do que eu para se movimentar durante uma tempestade. Se quiser, posso 
ficar aqui com voc.
- Por favor... fique. Ele mal ouviu as palavras, mas os olhos da moa 
estavam fixos,
e percebeu o que ela queria.
Dali a uma hora, depois de comer e beber alguma coisa, Raryana ficou 
sonolenta.
- Se tiver medo de noite, basta gritar que eu a ouvirei - disse o 
marqus. - Ou, se tocar a campainha, Hignet vir saber o que deseja. 
Prometo que nenhum de ns dois falhar.
-  verdade, senhorita - concordou o empregado. - vou me deitar vestido, 
para o caso de o patro precisar de mim. Alm do mais, dois ou trs 
marinheiros se machucaram, e deve haver ainda mais uns dez que vo 
precisar de meu atendimento, antes que termine a noite.
- Esqueci-me de lhe contar que Hignet  um enfermeiro experiente. Acho 
que devia ter sido mdico.
O homem sorriu, ante o elogio, e disse, vaidoso:
- Nunca viajo sem meu estojo de primeiros socorros. E fora
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bom t-lo trazido nesta viagem, milorde. No prximo porto onde pararmos,
terei que renovar meu suprimento de pomadas e ataduras.
Sempre posso contar com voc numa emergncia, Hignet.
O criado saiu e o marqus soltou a mo de Raryana, colocando-a sob as 
cobertas.
- Durma. Amanh, tudo estar melhor, garanto. E procure no ter medo. Sei 
que no d grande valor  minha opinio sobre vrios assuntos, mas 
garanto-lhe que, na escolha de um barco resistente, no tenho rival!
- Obrigada por ter sido... to bom. - Havia uma nota triste na voz dela, 
e por um momento seu esprito de luta parecia ter desaparecido. - 
Desculpe-me por dar tanto trabalho... quando eu tinha prometido o 
contrrio.
- Voc est sendo feminina. Como j lhe disse, as mulheres so um 
estorvo.  por isso que as detesto!
Raryana sabia que ele estava brincando. Mas, depois que o marqus saiu e 
fechou a porta da cabine, achou que o que tinha dito era verdade.
Tentara cumprir a promessa de no perturbar ningum, at mesmo quando se 
sentira to amedrontada que tivera vontade de gritar. Mas as boas 
intenes foram por gua abaixo e se tornara mesmo um estorvo, agarrando-
se a ele e tendo que ser servida, muito depois de o marqus ter jantado.
No podia deixar de pensar que, depois disso, ele a faria desembarcar em 
Gibraltar, em vez de lev-la para Argel, como esperava.
A culpa  minha, pensou. No sei por que fui to tola!
O barco continuava jogando muito, mas Raryana j no tinha tanto medo. 
Estava tambm com muito sono. Quando fechou os olhos, no sabia onde seus 
pensamentos terminavam e os sonhos comeavam.
- Dei um sedativo  moa - disse Hignet, enquanto ajudava o patro a se
despir.
- Fez muito bem. Colocou-o no champanhe?
- Sim, milorde. Ela nem percebeu! Poucas senhoras tm o seu paladar. Eu 
jamais conseguiria fazer isto com o senhor, sem que o percebesse.
- No deixe que a srta. Bartlett oua isso. Ela est sempre dizendo que 
as mulheres so to boas quanto os homens, em quase tudo, exceto, ao que 
parece, quando se trata de no ter medo durante uma tempestade.
- H muitos homens que tambm no gostam.
- No duvido. Mas  natural que uma mulher tenha medo, seja de uma 
tempestade ou de um rato.
-  verdade, milorde.
Depois que Hignet saiu, o marqus ficou pensando como Raryana tinha 
tremido de medo e como seu corpo era leve e delicado. Estava habituado 
com mulheres voluptuosas, de seios grandes, como Inez Shangarry, e no se 
lembrava de ter abraado uma to delicada como Raryana.
-  muito moa - murmurou. - Acabar perdendo essas ideias e encontrando 
um marido que tomar conta dela.
Ficou imaginando que tipo de homem a atrairia. Tinha que ser inteligente, 
claro. Por suas conversas, havia percebido que a moa no s apreciara a 
beleza dos lugares que tinha visitado, como tambm mostrava um 
conhecimento dos costumes e tradies desses lugares. Isto o surpreendia.
Ele sempre se interessara pela histria de diferentes pases, mas 
raramente encontrava algum que participasse desses interesses. Era por 
isto que preferia viajar sozinho com Hignet.
Ficou pensando que sempre havia desejado visitar o Egito. Achava a 
histria dos faras fascinante e acompanhava com interesse as novas 
descobertas nas pirmides.
Gostaria de ver a Esfinge, pensou.
Depois, achou que no tinha o menor cabimento pagear Raryana, levando-a 
Nilo acima, em seu iate.
Iria primeiro para Argel, decidiu. Mais tarde, se lhe desse vontade,
visitaria o Cairo, antes de voltar para a Inglaterra.
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Osborne dormiu bem. Ao acordar, a tempestade quase j passara.
O Cavalo-Marinho ainda jogava, mas a fora das ondas no se comparava com 
a da vspera. O marqus foi at a ponte de comando e encontrou o capito 
bastante satisfeito.
- Tinha razo, milorde. Este  um barco de confiana. Depois deste
batismo de fogo, no precisamos mais nos preocupar com ele.
- Estava preocupado? - perguntou Osborne, surpreso. O capito pareceu
constrangido.
- Um barco novo sempre preocupa, milorde, e nunca encontrei uma
tempestade to violenta, na baa, embora tenha enfrentado vrias.
- Acha mesmo que chegamos a correr perigo?
- Agora no tenho vergonha de confessar que tive uns momentos de 
ansiedade.
- Isto nunca me passou pela cabea. O senhor me surpreende, capito!
- Se o senhor no se opuser, gostaria de parar em Lisboa. O barco precisa 
de uns pequenos reparos e o comissrio me disse que h muita loua 
quebrada.
- Ento, vamos parar.
- Obrigado, milorde.
O marqus desceu para o salo, para almoar, e l encontrou Raryana.
Estava bem vestida, mas muito plida. Seus olhos se iluminaram, quando 
ele apareceu.
- Est melhor?
- Estou muito bem e bastante envergonhada.
- No h a menor necessidade de se desculpar.
- Estou humilhada por no ter tido fora de vontade para no agir to 
tolamente. - Notou o sorriso dele e continuou, em tom acusador: - Claro
que voc est encantado! Provou seu ponto de vista: que sou uma mulher 
fraca e medrosa! O que poderia ser mais agradvel a um homem do que isto?
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- Digamos que no pretendo usar isto contra voc. Continuaremos a ter 
nossas brigas, mas sem referncias ao que ocorreu ontem  noite.
- Creio que acha que est sendo generoso - disse ela, amarga.
Continuaram as brigas durante o almoo, como estavam habituados. Quando 
terminaram a refeio e Raryana se preparava para sair, o marqus disse:
- Sugiro que fique no salo, esta tarde. No me incomodar, porque vou 
para a ponte. Creio que, depois de passar vinte e quatro horas em sua 
cabine, voc est farta dela.
A moa olhou-o com ar de dvida, e ele continuou:
- O convite no tem segundas intenes. No estou querendo mim-la, nem 
trat-la como uma criatura fraca e sem opinio.
- Muito bem; ento, vou ficar - respondeu ela, em tom de desafio. - Mas, 
se achar que eu o incomodo,  s dizer!
- Garanto que eu no hesitaria em faz-lo.
Deixou-a sozinha. Quando voltou, dali a duas horas, encontrou-a dormindo 
num dos sofs, os cabelos louros sobre uma almofada de cetim.
Parecia muito moa e muito frgil. Sentando-se numa cadeira ao lado, o 
marqus ficou olhando para ela.
Sabia que a experincia de Raryana na vspera tinha sido exaustiva. Nada 
deprime mais do que o medo. Ao mesmo tempo, achou que ela demonstrara uma 
coragem que no esperara encontrar numa mulher, principalmente numa to 
jovem.
Ela ir para o Cairo e encontrar o pai, seja como for, disse a si mesmo. 
E desafiar todos os que tentarem impedi-la.  corajosa, embora um tanto 
temerria.
Pegou um livro, mas no conseguiu se concentrar na leitura. Seus olhos 
sempre procuravam Raryana, achando que era de fato muito bonita, de uma 
beleza que tinha qualquer coisa de espiritual, quando ela no assumia 
atitudes desafiadoras.
Talvez fosse a delicadeza dos traos, ou o formato do rosto. Admirou a 
curva das sobrancelhas, o nariz reto e ficou imaginando
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quem teria sido sua me. Aqueles traos delicados deviam vir de uma 
famlia aristocrtica.
Imaginou tambm o que seus amigos pensariam, se soubessem onde ele estava 
naquele momento, e com quem. Pensou nas piadas que fariam no clube, nos 
comentrios. Sabia perfeitamente que sempre falavam maliciosamente, 
quando ouviam dizer que estava interessado por algum.
Mas no tinha culpa de seus casos amorosos serem discutidos to 
abertamente. Era sempre a mulher em questo que se gabava na frente das 
rivais preteridas.
Na realidade, Osborne ficava aborrecido, ao descobrir que as pessoas 
falavam de certos casos, antes mesmo de que houvesse motivo para isto.
Pelo menos, ningum sabe que Raryana est aqui, pensou, satisfeito.
De novo, seus pensamentos voltaram a Inez Shangarry e ao marido. Percebeu 
que a clera e a humilhao em relao a eles diminura, nos ltimos 
dias. De certo modo, era compreensvel que aqueles que "no possuam" 
desejassem tirar dos que "possuam". E ele tinha uma fortuna imensa.
Mas sabia perfeitamente que no era s seu dinheiro que fazia com que as 
mulheres se atirassem em seus braos. Elas realmente se sentiam atradas 
por ele.
"Voc me ama? " "Voc nunca deixar de me amar? " Tinha ouvido estas 
frases inmeras vezes e ainda se lembrava de suas respostas evasivas, 
evitando mentir, mas ao mesmo tempo tranquilizando-as e no se mostrando 
indelicado.
Nunca havia amado ningum. Nunca existira uma mulher a quem pudesse 
dizer, com sinceridade, "eu a amo".
Devo ser diferente, ou, talvez, apenas sincero, pensou.
Lembrava-se de seus colegas de Eton, que, nos ltimos anos, sempre 
estavam apaixonados por alguma atriz ou uma mulher inadequada. Em Oxford 
era a mesma coisa. A metade de seus amigos do ltimo ano pouco estudava; 
passava o tempo correndo atrs das moas da vizinhana ou de alguma 
corista. Um de seus
colegas, em Eton, estivera loucamente apaixonado pela esposa de um dos 
professores. Durante horas a fio, escrevia-lhe poemas, exaltando-lhe as 
qualidades.
Por que nunca fui assim?, perguntou a si mesmo.
Depois achou que no queria ser sentimental a respeito de mulher alguma. 
A mulher existia para divertir e ajudar a passar o tempo. Quando ela no 
fazia mais isto, sempre havia outra para substitu-la.
E o que mais interessava a uma mulher, a no ser um homem? Era assim que 
deveria ser e para isto que os sexos tinham sido criados.
Olhou de novo para Raryana e refletiu em como era estranho que ela 
detestasse os homens.
No teve sorte com os que conheceu, pensou.
Lembrou-se de lorde Stroud e estremeceu. No podia imaginar aquele 
sujeito maante e pretensioso beijando e amando uma criatura bonita e 
sensvel como Raryana. No era de admirar que ela tivesse fugido.
Nesse momento, a moa acordou, abriu os olhos, viu-o ali sentado e 
sorriu.
- Estava sonhando... com voc - disse, sonolenta.
- Sinto-me lisonjeado. Pensei que no permitisse que um homem se 
intrometesse numa coisa to ntima como seus sonhos.
- Estvamos atravessando o deserto. Creio que a cavalo... ou talvez em 
camelos.
- Se eu pudesse escolher, preferiria um cavalo. Se h movimentos que 
detesto, so os de um camelo!
Raryana riu, sentou-se no sof e, instintivamente, ajeitou os cabelos.
- Estou... incomodando? Quer que me retire?
- Sua presena me encanta - respondeu o marqus. - E... notou uma coisa?
Ela olhou em volta, curiosa. O marqus disse:
- O mar est muito mais calmo, hoje.
- Sim,  verdade! Que bom! - Olhou para o marqus e
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acrescentou, em voz baixa: - Voc foi muito bom ontem  noite. Nunca
pensei que um homem pudesse ser... assim.
- Assim como?
- Cheio de considerao e... compreensivo.
- Cheguei  concluso de que voc conheceu estranhos tipos de homem, 
assim como acha que conheci estranhos tipos de mulher.
Raryana riu.
- Posso imaginar como foram suas mulheres. Brilhantes, cheias de 
vivacidade e muito bonitas. Meus homens sempre foram imaturos e 
aborrecidos, ou velhos e pretensiosos.
- Como acabei de dizer, voc no teve sorte. Mas um dia encontrar um 
homem diferente, e, posso apostar, vai ficar apaixonada.
Ela fitou-o e, por um momento, os olhos de ambos ficaram presos. Depois, 
bruscamente, o marqus estendeu o brao e puxou o cordo da campainha.
- J que estamos aqui, sugiro que tomemos um ch ingls. Estou 
interessado em saber se meu chef sabe fazer um bolo gostoso.
Entraram no porto de Lisboa mais ou menos ao meio-dia. Observando o iate 
entrar, Raryana se encantou com a beleza da cidade.
Construda nas encostas de pequenos morros, Lisboa era, na opinio do 
marqus, uma das capitais mais espetaculares da Europa.
De p, ao lado de Raryana, comentou:
- Sempre achei que Lisboa rivaliza com Npoles e Istambul, em majestade e 
beleza.
Era, certamente, muito diferente da maioria das capitais.  volta dos 
edifcios coloridos, havia um cinturo de vinhas, parques e matas. A 
parte mais velha era Alfama, o distrito leste, onde ruas estreitas e 
tortuosas se dirigiam para o rio, por entre rvores.
- O distrito central, a Baixa, foi construdo em 1755, depois
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que um terremoto destruiu a regio - explicou Osborne. - Voc vai ver que
agora as ruas so largas. H timas lojas, e tenho a impresso de que
est ansiosa para visit-las. Raryana fitou-o.
- Como sabe?
- Levando-se em considerao o tamanho de sua valise, acho que est louca 
por roupas novas.
- Claro que estou.
O marqus tinha observado com que habilidade ela modificava a aparncia 
dos poucos vestidos que possua. Tendo grande experincia em relao as 
mulheres, percebeu que o vestido branco tinha uma poro de faixas de 
vrias cores, assim, tambm como guirlandas de flores, com as quais 
Raryana modificava a aparncia dos vestidos, quando ia jantar.
No tombadilho fazia demasiado frio para ela usar outra coisa, alm do 
costume de viagem e a capa magnfica que lhe emprestara. Mas a moa 
mudava de blusa e tinha vrias echarpes de gaze que enrolava no pescoo 
ou amarrava com um lao sob o queixo.
Raryana suspirou.
- Gostaria de uns vestidos novos, mas no acho que seria prudente gastar 
dinheiro em roupa. Afinal, como voc mesmo falou, depois de vender as 
jias de mame, o dinheiro no vai durar muito e terei que procurar 
emprego.
- Voc me disse que isso seria fcil.
- Garanto que sim. Mas, como sou mulher, provavelmente seria mal paga!
O marqus riu.
- Muito bem. vou ser seu banqueiro e lhe fazer um emprstimo, que me ser 
pago quando voc entrar na posse de sua herana, ou casar com um 
milionrio.
- Claro que no vou casar com um milionrio! Mas... - Fez uma pausa.
- Mas... o qu?
- Mame sempre dizia que uma senhora no deve aceitar dinheiro de um 
homem.
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Voc me repetiu muitas vezes que as mulheres deviam estar
em igualdade de condies com os homens. Se fosse um amigo, eu no 
hesitaria em lhe oferecer um emprstimo, caso precisasse dele. E tenho 
certeza de que, se fosse esse o caso, voc aceitaria alegremente.
- Se achar que... est certo... - disse Raryana, hesitante.
- Que quer dizer com "est certo"? Acha que vou ser um cobrador 
insistente, ou, pior ainda, que vou esperar algum outro tipo de 
pagamento?
Falou sem pensar, e ela o olhou perplexa.
- Que pagamento poderia ser?
O marqus compreendeu a inocncia da pergunta e disse, depressa:
- Eu poderia fazer com que trabalhasse para mim. O chef est se queixando 
de que precisa de algum para ajudar a lavar os pratos.
A moa riu.
- No me importaria de fazer isso, se me ensinasse a cozinhar to bem 
como ele!
- Precisa dizer-lhe isso. Vai ficar lisonjeado.
Depois de discutirem sobre a quantia de que ela ia precisar, finalmente 
foram para terra fazer compras nas ruas largas da Baixa, Raryana levando 
vinte e cinco libras na bolsa.
- Precisa trocar o dinheiro por moeda do pas - disse o marqus. - Neste 
caso, vai parecer muito mais dinheiro.
- No Egito, precisarei de vestidos leves.
- Sim,  verdade. E no se esquea de comprar uma sombrinha e um abrigo. 
No quero que tenha insolao.
- J estive em pases mais quentes do que o Egito.
- Peo desculpas, se meu conselho foi inoportuno.
- Sabe que eu no quis dizer isso. Tem sido muito bom e estou ansiosa por 
um vestido novo, mais do que se possa imaginar. Estou farta dos que 
tenho!
-  uma emoo bem feminina.
Mas Raryana no aceitou a provocao e riu.
Osborne levou-a a uma costureira muito elegante, onde as roupas deviam 
ser muito caras, na opinio da moa. Havia uma grande variedade de 
vestidos. O marqus a ajudava a decidir, quando uma mulher saiu de um dos 
provadores, olhou para ele distraidamente e depois exclamou, encantada:
- Osborne!  mesmo Osborne, ou seu fantasma? - disse com um sotaque 
fascinante. - Quando  que eu ia imaginar encontr-lo em Lisboa?
O marqus se levantou.
- Madalena!  um prazer com o qual eu no contava! A ltima vez que ouvi 
falar de voc, estava conquistando Paris.
- Sim, obtive um grande sucesso, l, mas, depois de seis meses, senti que 
precisava de descanso e voltei para casa.
O marqus beijou-lhe a mo.
- Est ainda mais-bonita!
Era, sem dvida, muito bonita, pensou Raryana. Nunca imaginara que uma 
mulher pudesse ser to glamourosa e ter um rosto to fascinante.
Como se de repente se lembrasse da presena dela, o marqus disse:
- Permita que lhe apresente minha pupila, a srta. Raryana Bartlett. 
Raryana, caso voc o ignore, a sra. Madalena Monteiro  uma das melhores 
e mais famosas bailarinas da Europa.
- Voc me lisonjeia, Osborne - disse Madalena, fitando-o com seus olhos 
escuros e brilhantes, que combinavam com os cabelos pretos.
- Voc no tem rival e sabe que no estou exagerando insistiu o marqus.
- Gostaria de poder acreditar. Mas diga-me: quanto tempo vai ficar aqui? 
E quando poderei v-lo?
- Infelizmente, vamos partir amanh.  por isto que precisa jantar comigo 
hoje, Madalena. Quero que conhea meu iate.  novo e, assim como voc, 
no tem rival.
- Ser um prazer.
- Gostaria de levar alguns amigos?
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Sabe que desejo v-lo a ss, Osborne. Ento, por que no
vem me buscar antes do jantar, para termos um tte--tte? Depois, 
podemos jantar em seu iate. Tenho uma dzia de amigos que gostariam de me 
acompanhar e ficar conhecendo o ingls mais bonito e mais atraente que 
jamais encontrei na vida.
Havia algo de caridoso em seu tom de voz e na maneira com que suas mos 
pareciam esvoaar, tocando o brao e o peito do marqus, enquanto ela
falava.
Isto fez com que Raryana a comparasse a uma borboleta colorida e extica, 
adejando ao redor de uma flor.
Ela  fascinante, pensou a moa. , sem dvida, essencialmente feminina, 
como o marqus gosta que sejam as mulheres.
Madalena deu seu endereo. Quando Osborne lhe beijou a mo, ela disse:
- Ficarei contando os minutos at hoje  noite. Faz tanto tempo que no 
nos vemos!... Nunca me esquerecei dos dias felizes que passamos em Roma.
- E como eu poderia esquecer? Voc no mudou, Madalena, a no ser por ter 
ficado ainda mais bonita.
A morena fez uma boquinha em forma de beijo e disse, doce:
- At hoje  noite. Au revoir, mon ami.
Nem mesmo olhou para Raryana, quando saiu, seu vestido de seda 
farfalhando sedutoramente, o perfume extico que usava ainda permanecendo 
no ar.
O marqus voltou a ajudar a moa na escolha dos vestidos, mas ela achou, 
embora talvez fosse apenas imaginao, que ele j no se mostrava to 
interessado e que seus pensamentos estavam em outro lugar.
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CAPITULO IV

O marqus chegou atrasado para o jantar.
Quando Raryana entrou no salo, usando um dos vestidos novos comprados na 
Baixa, encontrou dois portugueses elegantes,  espera do anfitrio.
Ambos tinham ttulos retumbantes e imediatamente comearam a elogi-la, 
fitando-a com olhos grandes e melosos, que fizeram com que os comparasse 
a golfinhos apaixonados.
Achou a comparao engraada e resolveu que a repetiria ao marqus, assim 
que ficassem a ss.
Depois,  medida que o tempo passava, comeou a se impacientar. O jantar 
estava marcado para as nove e meia e j eram quase dez horas.
 tarde, quando voltaram das compras, tinha ficado admirada, quando o 
marqus lhe dissera a que horas iriam jantar.
- Os portugueses, como os espanhis, jantam muito tarde ele explicou. - 
Temos que nos acostumar com isto, embora o estmago s vezes reclame!
- Sei que na Espanha as refeies so servidas bem tarde, mas eu era 
muito criana, quando estive l, e meu pai e minha me me mandavam para a 
cama muito antes de eles jantarem.
- Em Portugal  a mesma coisa. Por isto, marquei o jantar para uma hora 
que meus convidados acharo aceitvel.
Mas j eram sete horas, quando ela o viu ir para terra.
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Estava sentada no convs e, sem que ele se desse conta, ficou observando-
o, quando desceu para o bote que o esperava.
Achou que, em traje de noite e com a capa de cetim sobre os ombros, 
estava magnfico e, sem dvida alguma, muito ingls.
Qualquer mulher ficaria orgulhosa de ser vista em sua companhia, pensou 
Raryana, desejando poder jantar a ss com ele, e no com uma poro de
convidados.
Agora, conversando com os dois cavalheiros portugueses, via, apreensiva,
que o tempo passava, e no havia sinal do marqus e de Madalena.
Ficou imaginando se teria acontecido alguma coisa para atras-los tanto. 
E se tivessem sofrido um acidente? Ou, por um motivo qualquer, o marqus 
fosse detido pela polcia ou pelos militares?
Como se adivinhasse seus pensamentos, um dos portugueses disse:
- No se preocupe, srta. Bartlett. Tenho certeza de que o chef sabe que 
ns, como nao, e dona Madalena, em particular, estamos sempre
atrasados.
- s vezes, com muito bom motivo, principalmente em relao a Madalena! - 
observou o outro.
Havia em sua voz uma nota que indicava uma segunda inteno.
Raryana fitou-o, surpresa. Depois percebeu que os dois se entreolhavam, 
parecendo rir, no dela, mas de alguma piada que a moa no entendia.
Finalmente, minutos antes das dez horas, ouviram rudo de movimento no 
convs, e Raryana soube que o marqus e sua convidada tinham chegado.
Madalena entrou na sala, muito bonita e glamourosa. Raryana ficou 
boquiaberta com o nmero de jias que usava e com a ousadia de seu 
decote. No pescoo e nos braos havia esmeraldas e rubis, numa profuso 
que poucas mulheres se atreveriam a usar. Estava com brincos das mesmas 
pedras e outras enfeitavam seus cabelos escuros.
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Ela estendeu a mo para os dois portugueses, que a beijaram e depois se
desmancharam em elogios  sua aparncia.
Nem Madalena nem Osborne se desculparam pelo atraso. Olhando para ele,
Raryana achou que seu sorriso era mais cnico do que de costume. Ao mesmo
tempo, pensou, com certa tristeza, que ele no parecia not-la, nem o
vestido novo que usava.
O comissrio apareceu e serviu o champanhe. Os trs homens brindaram a
Madalena, que sorriu, com ar tentador. Mas Raryana achou que ela tratava
o marqus com mais intimidade, o que fazia com que parecessem um pouco 
parte dos outros.
-  sua felicidade - disse ele, erguendo a taa. Madalena fitou-o, com ar
misterioso.
-  voc que me faz feliz, como bem sabe.
Raryana interpretou isto como uma declarao de amor ao marqus, mas, de
repente, a verdade a atingiu como uma bofetada.
Como tinha sido estpida, obtusa!
Claro que o motivo de os dois terem chegado atrasados era porque estavam
fazendo amor!
No sabia muito bem o que isto significava; embora tivesse viajado por
vrias partes do mundo, era muito inocente. Mas sabia que um homem podia
amar uma mulher sem querer casar com ela e ach-la desejvel sem que seu
corao estivesse envolvido.
Por isto  que o marqus, apesar de sair do iate s sete horas, demorara
tanto para voltar, e Madalena parecia uma gata que acabava de tomar um
prato de creme de leite.
Eu devia estar escandalizada! Estou escandalizada, pensou Raryana.
Depois imaginou que talvez os portugueses achassem suspeita a sua
situao no iate, sozinha com o marqus.
Ele tinha dito com firmeza que ela era sua pupila, mas duvidava de que
homens da idade do marqus tivessem por hbito viajar sozinhos com jovens
de dezoito anos.
Tinha ficado com os dois portugueses durante trs quartos de hora e, at
agora, no lhe passara pela cabea que os elogios deles haviam sido
exageradamente efusivos, em se tratando de uma
68
debutante, nem que houvesse na conversa certas indiretas que s agora ela
notava.
De repente, ficou constrangida.
Durante todo o jantar, a bailarina flertou com o marqus de um modo que a
me de Raryana teria achado horrvel. Quanto ao tio Hardwin, certamente
expulsaria de sua casa aquela "mulher da vida"!
Por outro lado, reconhecia que Madalena era fascinante como pouqussimas
mulheres. Cada palavra, cada movimento parecia calculado para atrair e
excitar um homem, e despertar seu desejo.
Raryana achou que, sem a menor dvida, os trs cavalheiros estavam presos
a todas as palavras da bailarina, parecendo fascinados.
Uma belssima representao!, pensou. Mas ser que estava realmente
apaixonada por seu anfitrio?
Como o marqus no lhe desse a mnima ateno, mal olhando para seu lado
ou lhe dirigindo a palavra, Raryana ficou despeitada, mesmo sabendo que
no tinha razo. Ele no a convidara para aquela viagem, e no tinha o
direito de se queixar, disse a si mesma.
Mas sentia-se negligenciada e inadequada, em comparao com Madalena. No
se admirou com o fato de o marqus no desejar sua companhia.
Todos conversaram e riram at altas horas.
Embora Raryana desejasse sair e ir para a cabine, sabia que seria uma
desfeita para os outros. Na verdade, um dos portugueses insistia em
conversar com ela com certa intimidade, a tal ponto que estava com
dificuldade para se livrar dele.
O homem queria flertar, mas era impossvel prestar ateno ao que ele
dizia, quando s o que desejava era ouvir sobre o que o marqus estava
conversando.
Finalmente, quando Raryana pensou que eles nunca mais fossem embora,
comearam as despedidas, e ela e o marqus foram para o tombadilho para
ver os convidados passarem para o bote que os levaria para terra.
69
Um dos portugueses foi o primeiro a descer, para ajudar Madalena, mas,
antes de desembarcar, ela se virou para Osborne e perguntou:
- Precisa, mesmo, partir amanh?
- Infelizmente, creio que sim.
- No me conformo em perd-lo de novo. Foi maravilhoso estar com voc, 
como nos velhos tempos.
- Sim, como nos velhos tempos, conforme voc diz.
- Voc est mais bonito, mais atraente e, talvez, mais irresistvel do 
que no passado.
O marqus ia beijar-lhe a mo, mas Madalena abraou-o pelo pescoo.
- Vai deixar em minha vida um vazio que ningum poder preencher - disse 
ela.
Ele a abraou e beijou.
Ficaram assim durante alguns momentos. Observando-os, de olhos 
arregalados, Raryana teve uma estranha sensao, quase de dor. Achou que 
era repulsa. Nunca tinha imaginado que uma mulher pudesse se comportar 
to descaradamente em pblico.
Antes que compreendesse seus sentimentos, Madalena e os amigos se 
afastaram no bote.
O marqus dirigiu-se para o salo, e Raryana o seguiu.
-  tarde - disse ele. - com certeza, amanh vamos estar cansados, j
que, at hoje, temos mantido um horrio respeitvel.
- Sim... talvez...
Tinha dificuldade para falar com naturalidade, mas o marqus no pareceu 
notar isto. Dali a um momento, disse:
- Boa noite, Raryana. Espero que tenha apreciado a reunio. Foi uma 
mudana agradvel, depois dos problemas da tempestade.
- Boa noite... milorde.
Chegando  porta fez uma reverncia e saiu. Ao chegar  sua cabine, 
sentou-se diante da penteadeira e se olhou no espelho. Mas s o que via 
era o rosto atraente, fascinante de Madalena.
 desse tipo de mulher que ele gosta!, pensou."
70
Ainda sentia uma dor no peito, lembrando-se da maneira como o marqus
beijara a bailarina.
Ela  rude e vulgar - murmurou.
Mas sabia que Madalena no era nenhuma dessas coisas, e sim, uma 
personalidade do teatro, vivendo num mundo que ela desconhecia.
Que tenho eu para oferecer ao marqus?, perguntou a si mesma.
De repente ficou consternada com a implicao que havia neste pensamento. 
Por que haveria de querer lhe oferecer alguma coisa? Muitas vezes tinha 
dito a ele, assim como a si prpria, que detestava os homens e no queria 
saber deles.
Ento, que importncia tinha, o que o marqus pensasse ou sentisse a seu 
respeito?
A dor do corao era insuportvel. E sabia o que significava. Era uma 
emoo que jamais havia experimentado na vida, que nunca pensara que 
chegasse a sentir em relao a um homem: cime!
Estava com cime de Madalena. com medo de fazer a si mesma outras 
perguntas em relao ao marqus, levantou-se de um salto e comeou a se 
despir rapidamente.
S depois que estava na cama, e a cabine s escuras, foi que a imagem de 
Osborne beijando Madalena voltou a atorment-la.
Houvera graa e quase beleza, na maneira como se abraaram, os corpos 
unidos, a cabea dele inclinada sobre a dela, o pescoo branco da 
bailarina destacando-se contra o palet escuro do marqus.
Pareciam os heris de uma pera romntica, e Raryana reconheceu que 
aquele era o papel que ela prpria desejava representar: a herona
admirada, festejada, perseguida pelos homens; a herona que finalmente se
unia ao heri e era beijada, como Madalena tinha sido.
Horrorizada com suas fantasias, sentou-se na cama.
No era possvel que estivesse pensando nessas coisas! Mas no eram 
apenas seus pensamentos que estavam descontrolados; seu corpo estava 
cheio de sensaes que jamais soubera que existiam.
Devo estar ficando louca! - disse, em voz alta.
Quando se deitou de novo, tornou a ver o sorriso cnico do marqus e seu 
olhar, quando conversava com Madalena.
Ele nunca me olhou desse jeito, pensou, desesperada.
Escondeu a cabea no travesseiro, repetindo baixinho, sem parar:
- O que estou sentindo no pode ser... no pode ser... amor!
O iate saiu do porto de Lisboa de madrugada. Quando ouviu o rudo das 
mquinas, Raryana teve imensa satisfao, por saber que estavam deixando 
Madalena para trs.
Passou a noite toda sofrendo, lutando consigo mesma, com seus sentimentos 
e principalmente com sua mente, devido ao que lhe parecia um novo perigo, 
pior do que qualquer outro.
Como podia estar apaixonada por um homem que detestava as mulheres? Como 
era possvel que justamente ela se apaixonasse? Apesar de tudo, 
acontecera. Mas, se Madalena no tivesse aparecido para despertar seu 
cime, talvez nunca se apercebesse desse amor.
Agora tinha uma profunda conscincia de que o marqus dormia no camarote 
ao lado e de que estavam de novo a ss, como no incio da viagem.
A questo era: por quanto tempo?
No podia deix-lo... No podia! Mas preferia morrer, a permitir que ele 
percebesse o que sentia.
Agora que compreendia o quanto o achava atraente, pensou que devia haver 
centenas de mulheres que o amavam e pelas quais ele no se interessava.
O marqus tinha demonstrado claramente que no ligava para ela. E, depois 
de tudo o que haviam discutido sobre os sentimentos dela, seria uma 
tremenda vitria, para Osborne, saber que o amava.
Poderia se congratular por ter vencido seu antagonismo pelos homens e 
feito com que ela ficasse to derretida como as outras que o amaram.
72
Ele me detesta porque sou mulher, mas, como  bom e cheio de
considerao, acha que tem que me aguentar, refletiu Raryana.
Depois pensou que o iate no tardaria a chegar a Gibraltar!
Desejou no ter vindo para bordo do Cavalo-Marinho, e sim, ter encontrado 
outro navio que a levasse para o Cairo.
Se isto tivesse acontecido, no se sentiria como agora e talvez 
continuasse detestando os homens at o fim da vida. Mas o arrependimento 
no mudou seus sentimentos a respeito do marqus. Quando se encontrou com 
ele, na hora do almoo, seu corao comeou a bater mais depressa.
Surpreendeu-se por no ter percebido, no momento em que o conhecera, que 
era o homem mais bonito e mais atraente que j tinha visto.
- Dormiu bem?
- Muito bem, obrigada- mentiu.
- Espero que todas as suas compras tenham vindo para bordo, antes de 
partirmos. Esse vestido  muito bonito.
- Obrigada. - Desesperada, achou que ele dizia aquilo maquinalmente, pois 
seus pensamentos deviam estar voltados para Madalena. No podendo conter 
a curiosidade, perguntou:
- Por que no ficou mais tempo em Lisboa? Afinal, no havia pressa de 
partir.
O marqus sorriu.
- Minha bab costumava dizer: "O suficiente vale tanto quanto uma festa!" 
No tenho vontade de me ver envolvido nos divertimentos que Lisboa 
oferece em profuso.
Raryana tinha vontade de perguntar por que ele no queria ficar com 
Madalena, mas era tmida demais para fazer isto. Osborne mudou de assunto 
e ela sentiu que no desejava discutir sua vida ntima.
Falavam de outras coisas, mas dali a pouco ela no resistiu e Perguntou:
- Dona Madalena  realmente uma grande bailarina?
-  excepcional. E famosa na maioria das capitais da Europa. Raryana quis 
perguntar quando  que tinham estado juntos em
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Roma, mas sentiu que o marqus, embora nada dissesse, tinha posto uma 
barreira como proteo  curiosidade dela. Pouco depois, ele comentou; 
pensativo:
- Creio que voc no devia ficar conhecendo bailarinas ou atrizes, por 
mais famosas que sejam, mas seria impossvel eu no oferecer 
hospitalidade a uma velha amiga.
- Como sua hspede indesejvel, no estou em posio de criticar seus 
convidados.
-  verdade. Por outro lado, eu devia ter pensado que voc s tem dezoito 
anos e  uma dama.
- E uma dama, pelo fato de ser mulher, naturalmente, no tem o direito de 
se divertir! - respondeu, com veemncia.
Ele riu. Recomearam os costumeiros debates.
- As mulheres de sua classe deviam ser resguardadas de tudo o que  
vulgar e feio.
- Em outras palavras, presas numa gaiola. Creio que os homens, se 
pudessem, conservariam as mulheres em purdah!
-  uma excelente ideia, e sempre tive inveja do Oriente, por causa 
disto! O homem pode chamar a mulher, quando precisa dela. mas, fora isto, 
ela fica trancada, para no se meter em encrencas e no ter uma 
influncia perturbadora.
-  uma atitude autocrtica e egoisticamente masculina, que um dia ser
destruda pelas mulheres que no suportaro mais tal tratamento.
- Se imagina que podero formar um exrcito de amazonas, bastante forte 
para reduzir os homens  condio de escravos, logo veriam que isto seria 
extremamente aborrecido.
-  melhor do que sermos escravas! Quando chegarmos s pirmides, garanto 
que vamos ficar convencidos de que foram construdas por trabalho escravo 
e que as escravas eram mulheres!
Houve um momento de silncio. Depois, o marqus disse, devagar e num tom 
desconfiado:
- Quando "chegarmos" s pirmides? - Raryana corou. Esqueceu-se de que 
no vou com voc? Ou est planejando um jeito de me fazer capitular e 
lev-la at l?
Ela respirou fundo.
- Sabe que  este meu maior desejo - respondeu, em voz i baixa. - Sabe 
que ficarei apreensiva, se me deixar em Gibraltar ou em outro lugar 
qualquer. Mas no tenho o direito de lhe pedir que faa uma coisa que no 
deseja fazer. Tem sido to... bom... extremamente bom.
Havia em sua voz uma sinceridade e uma emoo que o marqus ainda no 
tinha percebido nela. Fitou-a, surpreso. Achando que se trara, Raryana
levantou-se. - Garanto que deseja ficar sozinho, milorde.
- Preciso, de fato, de tempo para pensar no que voc acaba de dizer.
- Desculpe-me. No queria ser inoportuna, nem incomod-lo, de modo algum.
Dei-lhe minha palavra e vou cumpri-la... acontea o que acontecer.
Dito isto, saiu do salo e fechou a porta.
- Droga! - exclamou o marqus. - Ser que existe homem mais atormentado 
pelas mulheres do que eu?
Ao mesmo tempo, sabia que seria duro fazer com que Raryana desembarcasse 
em Gibraltar ou em Argel. Mesmo que encontrasse um navio e a colocasse a 
bordo, dando-lhe dinheiro suficiente para a viagem, ela chegaria ao Cairo 
sem ter certeza de encontrar o pai. E no tinha amigos, l.
Era to jovem e to inocente, que o marqus se arrependeu de t-la 
apresentado a Madalena.
No deixara de perceber como ficara escandalizada e atnita, quando 
Madalena o havia beijado no tombadilho, ao se despedir dele.
Dois anos antes, o marqus tinha tido um caso amoroso com Madalena, em 
Roma.
Ficou conhecendo a bailarina numa festa, no dia de sua chegada, e 
imediatamente se sentiram atrados um pelo outro. Quando pegou a mo 
dela, o marqus soube que essa atrao, se fosse encorajada, Poderia se 
tornar muito sria.
Achando que seria divertido, foi ao teatro, na noite seguinte,
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decidido a se livrar de um rival com quem ela prometera jantar.
Nas quatro semanas seguintes, Madalena desfez todos os compromissos
sociais e no viu mais ningum, a no ser ele.
Estavam na primavera, e Roma se mostrava muito bela. O romance entre 
eles, se  que se podia chamar assim, tinha sido uma delcia fsica que o 
marqus jamais havia conhecido.
Madalena era mulher de muitos amantes e, quando desejava um homem, se 
entregava a ele completamente, com toda a arte do amor, assim como se
esmerava na arte do bale.
Foi o marqus que rompeu com ela e partiu. Sua experincia lhe ensinara a 
nunca ficar saciado a ponto de sentir tdio.
No esperava mais encontrar Madalena. Quando entraram no porto de Lisboa, 
no tinha a menor inteno de perguntar se ela estava na cidade.
Teria sido fcil v-la, na ltima vez que ela estivera em Paris, mas 
Osborne no desejou reviver o passado, nem estragar o que tinha sido um 
encantador perodo de sua vida.
Mas, na vspera, foi impossvel resistir a Madalena, embora no 
pretendesse fazer amor com ela, a no ser que o momento parecesse certo e 
o ardor que tinha havido entre eles se reavivasse.
A experincia foi muito satisfatria; no entanto, no queria tornar a se 
envolver na atmosfera ertica e tempestuosa da vida de Madalena. Como 
muitas mulheres de seu tipo, a bailarina era exigente e esperava a total 
ateno de um homem, o que significava que ele tinha que se entregar de 
corpo e alma.
Embora Madalena o cativasse e despertasse seu desejo, era a ela que 
Osborne se referia, ao dizer que "o suficiente vale tanto quanto uma 
festa!
Agora, no pensava na bailarina, mas em Raryana. Disse a si mesmo que 
devia ter percebido que, sob a frgil experincia da moa, havia uma 
vontade de ferro. Ela estava decidida a ficar com ele e, se possvel, 
obrig-lo a lev-la at o Cairo.
- No farei nada disso! - falou em voz alta.
Mas no havia muita convico em suas palavras e o marqus
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sabia que suas defesas estavam caindo e que achava difcil abandon-la a 
seu destino.
O iate encontrou um tempo surpreendentemente bom no Mediterrneo. A noite 
fazia frio, mas o Sol brilhava durante o dia. Quando deixaram Gibraltar, 
o tempo esquentou, de modo que Raryana pde usar os vestidos leves que 
tinha comprado para levar para o Egito, com um leve xale nos ombros para 
proteg-la da brisa do mar.
Osborne, que passava o dia inteiro no tombadilho, estava ficando queimado 
de sol. Ela achava que o bronzeado lhe ficava bem e que estava ainda mais 
bonito.
Ele no falou em mand-la para terra, quando chegassem a Argel, mas a 
cada dia que se aproximavam do porto, ela rezava para que no fosse 
obrigada a desembarcar sozinha.
Eu o amo! Oh, meu Deus, eu o amo!
Temendo que o marqus adivinhasse seus sentimentos, Raryana tornou-se 
cada vez mais agressiva nas discusses, muitas vezes deixando-o sozinho.
Todos os dias, enquanto conversavam, s refeies, ela ficava conhecendo-
o melhor, compreendendo que era muito diferente de todos os homens que 
conhecia.
Sabia, naturalmente, que no podia esperar que os rapazes que encontrara 
fossem to cultos como o marqus, ao passo que os mais velhos, como lorde 
Stroud, no tinham sua atrao fsica, nem sua personalidade, que faziam 
com que ele se distinguisse, onde quer que estivesse.
O marqus demonstrava grande interesse pelo pai de Raryana e por seu 
trabalho, e ela lhe falou de vrias descobertas dele, em diferentes 
pases. Depois, explicou por que tinha ido para o Egito.
- Quem  esse homem que seu pai foi procurar?
-  um francs, Auguste Mariette. Papai conheceu-o quando ele trabalhava 
no departamento egpcio, no Louvre. Os dois tinham longas conversas.  
muito mais moo do que papai, de modo que a amizade entre os dois 
surpreende um pouco. Creio que monsieur
Mariette  um homem muito inteligente, embora papai dissesse que quase 
todos os homens que trabalham em museus se tornam cacetes e bolorentos, 
como as antiguidades com as quais lidam! O marqus riu.
- Continue sua histria.
- H mais de um ano, monsieur Mariette escreveu a papai, contando que 
tinha deixado a Frana, comissionado pelo Louvre para ir ao Cairo comprar
manuscritos coptos. Disse que viu como os antigos tesouros estavam sendo
pilhados no Egito e que tinha muito mais interesse em impedir esses
abusos do que em pechinchar com antiqurios.
- O que seu pai achou disso?
- Fazia muito tempo que papai dizia que era uma vergonha como poucos 
pases compreendem o valor do que possuem, principalmente o Egito.
- Tambm ouvi dizer isso.
- Papai ficava furioso com os arquelogos, os turistas e os escavadores 
que pareciam dominados pela paixo de colecionar. Na realidade, cometem 
roubos em monumentos antigos, tmulos e templos, s vezes levando embora 
verdadeiros tesouros.
- Reconheo que  roubo em larga escala.
- Exatamente. Monsieur Mariette explicou que, se no achassem um meio de 
conservar os tesouros que ele havia encontrado no Egito, o futuro dos 
arquelogos no pas ficaria seriamente prejudicado.
- O que foi que ele descobriu?
- Contou a papai que, no muito tempo depois de chegar ao Cairo, notou 
uma coisa extraordinria: algumas esfinges de aparncia idntica eram 
colocadas em jardins particulares, por funcionrios egpcios ricos, assim 
como diante dos templos novos das cidades de Alexandria, Cairo e Gize.
- Se eram iguais, deviam ter a mesma origem.
- Foi exatamente o que monsieur Mariette pensou. Um dia, caminhando pelas 
runas de Sakkarah, uma cidade perto do Cairo,
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ele viu uma esfinge enterrada na areia, com exceo da cabea, perto da 
grande pirmide de Zoser.
- E percebeu a semelhana entre essa esfinge e as que viu no Cairo e em 
Alexandria - sugeriu o marqus.
- Isso mesmo. Desenterrou-a e descobriu uma inscrio sobre pis, o boi 
sagrado de Mnfis. Soube ento que tinha feito uma descoberta muito 
interessante!
Havia um tal triunfo na voz de Raryana que o marqus tambm ficou 
excitado e perguntou:
- Que descoberta?
- Monsieur Mariette descobriu que tinha encontrado a Alameda das 
Esfinges, que os arquelogos sabiam que existia, mas nunca tinham 
conseguido localizar.
- Que aconteceu?
- Ele tomou a seu servio um grupo de rabes, muniu-os de enxadas e ps e 
fez com que comeassem a escavar. Conseguiram desenterrar mais de cento e 
quarenta esfinges!
- Deve ter sido muito emocionante.
- Foi a que ele escreveu para papai. Estava fazendo tudo por conta 
prpria e acho que precisava do apoio de um professor e arquelogo 
famoso. Afinal, tinha sido mandado ao Cairo para comprar manuscritos.
- Ento, seu pai partiu!
- No pde esperar mais. Principalmente, porque monsieur Mariette achava 
que, alm da Alameda das Esfinges, poderia encontrar os lugares onde 
estavam enterrados os bois sagrados. Creio que sabe que foi somente mais 
tarde, na histria do Egito, que comearam a representar os deuses com 
forma humana. Antes, eram representados como animais. Havia a vaca, o 
carneiro, o falco, a bis, o crocodilo, o gato e a serpente.
- Sim, eu sabia. O mais famoso se no me engano,  o boi sagrado de 
Mnfis.
-  verdade. Adoravam um animal vivo, que vivia no templo e era cuidado
pelos sacerdotes. Papai me contou que, quando morria, era embalsamado e
enterrado com grande cerimonial.
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- E acha que Mariette encontrou o lugar onde esto enterrados os bois?
Creio que h um cemitrio para gatos sagrados, um para crocodilos e 
outros para bis, mas, pelo que me consta, nunca encontraram o dos bois.
- Isso mesmo. Talvez papai se enganasse, mas, antes de partir, me disse 
que estava certo de que os tmulos dos bois sagrados deviam ficar perto 
da Alameda das Esfinges.
- Est a uma coisa que eu gostaria de ver! - O olhar do marqus 
encontrou o dela e viu ali uma pergunta. - Est certo. voc ganhou! - 
disse, taciturno. - Confesso que despertou minha curiosidade. vou lev-la 
at o Cairo.
Raryana deu um grito de alegria.
-  verdade?  mesmo verdade?
- Parece que sim. No posso deixar de sentir que  sinal de fraqueza, de 
minha parte, permitir que uma simples mulher me faa alterar meus planos. 
com certeza, vai ficar toda animada, s porque me derrotou!
- Estou animada porque me sinto muito grata! Eu estava com medo, pensando 
em me ver sozinha no Cairo, talvez no conseguindo encontrar meu pai. Mas 
agora que voc vai comigo... tudo parece maravilhoso... realmente, 
maravilhoso!
Havia na voz dela tanta alegria que o marqus teve a impresso de que 
dera um presente a uma criana, tirado do alto da rvore de Natal.
Mas, quando Raryana saiu e o deixou sozinho, quase se arrependeu do 
impulso que o fizera prometer lev-la at o Cairo.
Pelo menos, no ficarei com dor na conscincia, pensando na segurana 
dela, considerou. Alm do mais, estou realmente interessado em ver o 
tmulo dos bois sagrados.
Em seu camarote, Raryana fez uma orao, agradecendo, no s porque o 
marqus ia lev-la at o Cairo, como porque no precisaria se separar 
dele.
Ao mesmo tempo, no estava disposta a dizer-lhe que temia no
80
encontrar o pai, no Egito, pois ele podia ter ido para outro lugar, e
talvez Mariette tivesse voltado para Paris.
Sabia perfeitamente que os professores e os arquelogos eram pessoas de
planos vagos, que o tempo pouco significava para eles e que raramente se
importavam com a comodidade alheia. Era at provvel que o pai e o
francs tivessem desaparecido no deserto, para fazer alguma escavao.
Nunca lhes ocorria informar para onde iam e muito menos escrever para os
parentes, em casa, falando sobre o que despertara seu interesse.
Seu pai sempre tinha sido distrado.
Mas no tanto, a ponto de no se comunicar com ela por um perodo de
tempo to longo.
Talvez um dos motivos de ela detestar os homens fosse o pouco
caso com que o pai se comportava em relao  esposa e  filha.
Quando estavam juntos, eram bastante felizes, mas a vontade dele
era sempre soberana e a me nunca pensaria em fazer uma coisa
que ele no aprovasse.
 Quando estava ausente, ou queria partir em alguma expedio para longe,
no pensava nem por um minuto que a mulher ia ficar muito solitria.
Mais ainda: nunca se preocupara em arranjar algum da famlia para fazer
companhia s duas.
- Acho que papai  muito egosta - disse Raryana  me, em certa ocasio.
Como resposta, a me riu.
- Qual o homem que no  egosta? Eles dominam o mundo, querida, e,
quanto mais depressa voc aprender isto, melhor! A mulher vem em segundo
lugar, em relao ao trabalho de um homem ou aos seus interesses.
Os homens que Raryana conheceu nunca fizeram com que Pensasse de outra
forma. Eram egostas e auto-suficientes, e seu tio a personificao de
todos os defeitos masculinos que ela detestava e desprezava.
Todos, em casa, sentiam medo dele. Nunca se ouviu dizer que tivesse feito
uma boa ao, a no ser que lhe fosse vantajosa, nem
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que dissesse uma palavra amvel, se fosse possvel pr defeito em alguma 
coisa.
No era de se admirar que ela no estivesse preparada para encontrar um 
homem como o marqus.
Tinha percebido a maneira agradvel com que ele se dirigia aos 
empregados, vira que as acomodaes da tripulao tinham recebido a mesma 
ateno dispensada s cabines dos hspedes, guardadas, naturalmente, as 
devidas propores.
Ele  bom, generoso e delicado, pensou, lembrando-se de como Osborne a 
havia tratado.
Em compensao, detestava as mulheres e nunca iria sentir nada por ela, a 
no ser uma divertida tolerncia.
Como o amava, Raryana achou que o tempo voava e que logo chegaria o 
momento inevitvel da despedida. Ento, ele voltaria para a Inglaterra, e 
nunca mais o veria!
Talvez fosse melhor que nunca o tivesse conhecido.
Mas, porque o amava, seus olhos estavam mais brilhantes e ela nunca 
parecera to bonita como agora.
Hignet tinha colocado no convs, para ela, uma cadeira com um banquinho 
para os ps, num lugar protegido do vento, com um toldo, por causa do 
Sol.
s vezes ficava encantada, quando o marqus lhe vinha fazer companhia. 
Sabendo agora que ele se interessava pela mitologia egpcia, Raryana lhe 
contava muitas das coisas que o pai lhe havia explicado.
- Estou ansiosa para conhecer Alexandria - disse, durante uma dessas 
conversas.
- Porqu?
- Para ser sincera, acho que porque sou mulher. Em Alexandria h o 
palcio de Clepatra e, no sei por qu, creio que seu tmulo e o de 
Antnio esto l.
- Tinha me esquecido disso. E estava mais interessado pelo fato de ser a 
cidade de Alexandre, o Grande, e porque na ilha de Pharos havia o famoso 
farol, uma das sete maravilhas do mundo.
- Gosto de lembrar que Menelau levou para o Egito sua linda
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mulher, Helena, aps a queda de Tria - comentou Raryana. Depois
voltaram para Esparta, com objetos ricos e valiosos, como lembranas da 
visita.
- Vejo que, quando chegarmos ao Egito, vamos ter muito sobre o que 
conversar. - O marqus sorriu. - Enquanto voc estiver vendo as jias e 
os palcios, estarei pensando no grande farol e na luz que ardia 
constantemente e passava atravs de uma lente de pedra transparente.
- Que aconteceu com o farol? Nunca ouvi contar por que no existe mais.
- O arquiteto construiu uma rampa em espiral, por onde podiam subir 
cavalos, ou mesmo vages, levando lenha para alimentar o fogo. A luz do 
farol podia ser vista, no mar, a cento e cinquenta quilmetros de 
distncia.
- E, por isso, ele se incendiou.
- No, nada to simples. Um espio a soldo de um imperador cristo 
convenceu o califa Al-Wahid de que os construtores tinham escondido um 
tesouro sob o farol.
- E a tentao foi grande demais!
- Exatamente. Fizeram escavaes, a enorme lanterna caiu e se quebrou, e
nada do que Al-Wahid ou seus operrios fizeram conseguiu remediar o mal.
- Oh, que pena! Ento, foi destrudo pela cobia?
- Infelizmente, creio que sim. A cobia, a julgar pelo que disse 
Mariette, est nos privando dos maravilhosos tesouros que o Egito deve 
ter ocultos na areia e que poderiam beneficiar o mundo inteiro.
- Voc faz com que eu tenha vontade de lutar, como papai, Para preservar 
o passado.
- Sendo uma simples mulher, acho que deveria se preocupar com o seu 
futuro - respondeu o marqus, provocador.
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CAPITULO V

- Mal posso acreditar que esteja aqui! - exclamou Raryana.
- Voc duvidou de que conseguiria? Ela sorriu.
- No exatamente, porque tenho que encontrar papai, seja como for. Mas 
no podia acreditar que voc pretendia navegar pelo Nilo.
Raryana ficava cada vez mais excitada,  medida que se aproximavam de 
Alexandria. O iate agora navegava por guas barrentas, de um marrom 
avermelhado.
Depois, na linha do horizonte, surgiram as primeiras construes da baa, 
o palcio do quediva e, finalmente, o porto.
Quando desceram em Alexandria, foram recebidos por mendigos, falcoeiros e 
mgicos. Como Raryana e o marqus estavam ansiosos para chegar ao Cairo, 
logo partiram, navegando pelo rio largo, com diques de seis metros 
erguendo-se acima dos campos.
A moa se encantava com tudo: com as plantaes de milho e cana, com a 
terra marrom, revirada pelos arados de madeira, e com as plantaes de 
tamareiras e de bananas.
Nos campos, notou que o fellah, ou trabalhador egpcio, debruado sobre a
enxada, usava o mesmo tipo de instrumento que seu pai lhe havia mostrado
nos museus, com a etiqueta "3000 a. C. ". Ou ento, nu da cintura para
cima, ele caminhava atrs de um arado puxado por dois bois pretos ou por 
um camelo. O arado
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era exatamente igual aos que Raryana veria depois nas pinturas dos
tmulos.
Apesar de uma estrada de ferro ter sido recentemente inaugurada entre 
Alexandria e o Cairo, ainda havia muito trfego no Nilo. As velas brancas 
tremulavam  brisa e os barcos seguiam silenciosamente rio abaixo e rio 
acima.
No alto dos diques, os camelos passavam em fila indiana e os burros 
seguiam, com seus fardos pesados, em meio  poeira negra. Na lama escura 
das margens, homens seminus viravam as manivelas dos barris que sugavam 
as guas do Nilo, no mesmo estilo primitivo de tempos imemoriais.
Enquanto viajavam, o marqus e Raryana conversavam sobre a histria do 
Egito, e ela percebeu que ele se interessava profundamente pela campanha 
de Napoleo, em 1796.
- Sabe que ele tinha uma frota de trezentos e vinte e oito navios, 
levando a bordo trinta e oito mil homens, uma fora quase to grande como
a que Alexandre tinha comandado? - perguntou o marqus.
- Odeio Napoleo!  o caso tpico de um homem que precisa sempre vencer e 
conquistar, seja qual for o sofrimento que causa a outras pessoas.
- Mas tem que reconhecer que era um grande soldado.
- No reconheo nada! Ele sentia uma profunda indiferena pelos homens 
que morriam em suas campanhas. Foi bem feito Nelson ter aparecido com sua 
frota, como um anjo vingador, e que um grande nmero de soldados 
franceses tenham ficado cegos, nessa campanha!
- Voc  muito sanguinria!
- Gosto de quem constri, e no de quem destri respondeu, zangada.
O marqus riu. Depois do jantar, quando foram para o convs Para ver o 
cu estrelado, ficaram encantados com o mistrio e a magia da noite 
egpcia.
No Egito no havia crepsculo. Havia uma quietude breve,
expectante, dando a Raryana a impresso de que o mundo tinha parado.
A primeira estrela apareceu, ouviu-se o rudo de um morcego e as sombras 
da noite desceram sobre a terra.
A moa compreendeu por que o pai dizia que o trabalhador egpcio tinha 
medo do escuro. O sbito cessar da luz, depois de um dia dourado, tinha 
inspirado estranhos desenhos que os antigos egpcios haviam pintado em 
seus tmulos. Eles acreditavam que a morte seria como a noite, 
atormentada por estranhos seres criados pela imaginao, meio homens, 
meio animais.
Mas, quando as estrelas brilharam e uma Lua plida apareceu, a terra foi 
banhada por uma nova luz, prateada e mstica. O Nilo adquiriu um tom de 
prata fundida, e Raryana teve a sensao de que o silncio tentava lhe 
dizer qualquer coisa.
A moa estava usando um dos vestidos novos, comprados em Lisboa. Quando 
entrou no salo, antes do jantar, achou ter visto um brilho de admirao 
no olhar do marqus.
Desejava ardentemente que ele a admirasse, mas no acreditava que jamais 
pudesse competir com o fascnio de Madalena.
Apesar de tudo, por mais sedutora que fosse a bailarina, o marqus tinha 
sado de Lisboa sem v-la novamente. E no havia dito que "o suficiente 
vale tanto quanto uma festa"?
Raryana ficou imaginando como  que um homem podia se saciar de uma 
criatura to encantadora. Depois, achou que a explicao era seu dio 
pelas mulheres, todas as mulheres, inclusive ela prpria.
Quando o marqus se aproximou dela, no tombadilho, Raryana teve a 
impresso de que todo seu corpo vibrava por t-lo to perto.
- O que est procurando? - perguntou ele.
Fitou-o, surpresa por ser to perspicaz a ponto de compreender que uma 
parte dela se havia transportado para o velho Egito. No soube explicar 
direito o que sentia.
- Creio que estou tentando imaginar a grande barcaa de Clepatra, 
navegando por estas mesmas guas, para ir ao encontro de Antnio. Gosto 
de pensar nas velas douradas e perfumadas, nos
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presentes que levava para ele, nas mulheres bonitas a bordo. Mas,
naturalmente, Clepatra era a mais bela de todas!
- E Antnio certamente apreciou o que lhe era oferecido disse ele, com 
certo cinismo.
Eles se apaixonaram. Antnio veio para conquistar o Egito, mas Clepatra 
o conquistou!
- Pelo contrrio, ela  que foi conquistada. Amava-o, e, a no ser que os 
livros que li estejam enganados, ele sempre foi o senhor. Para dizer a 
verdade, ela o amava mais do que ele a ela!
- Eram felizes! - rebateu Raryana ferozmente. - Muito felizes!
- Por que no? Clepatra era uma mulher extraordinariamente bela!
Houve um momento de silncio. Depois, ela perguntou, baixinho:
-  s isso que os homens querem? Que uma mulher seja... bonita?
O marqus hesitou por um momento.
- Se quer que eu seja franco, acho que um homem procura muito mais, 
embora raramente encontre.
- O que procura?
Osborne olhava para o rio e,  luz da Lua, Raryana podia ver claramente 
seu perfil. Conversavam de uma maneira como nunca tinham feito, antes. 
Ele no estava sendo cnico, nem sarcstico, nem tentando brincar com 
ela. Dizia o que realmente sentia. A moa prendeu a respirao, temendo 
interromper o curso dos pensamentos dele.
Acho que todos os homens, quando so sinceros, tm no corao o tipo 
ideal de mulher que desejam e com quem gostariam de casar.
- E... como seria ela? - perguntou Raryana, mal ousando Pronunciar tais 
palavras.
Voc me perguntou se o que o homem deseja de uma mulher e s a beleza. 
Acho que, quando um homem ama, a mulher que ele escolheu sempre lhe 
parece bonita. Mas no  a beleza fsica que
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tem mais importncia.  alguma coisa mais profunda, que vem do esprito.
Ou talvez seja aquilo que as pessoas religiosas chamam de alma.
De novo houve silncio. Como Raryana nada dissesse, ele continuou:
- No pretendo ser uma autoridade sobre as antigas religies, como seu 
pai, mas j li que as pessoas antigamente procuravam alguma coisa maior, 
algo alm delas, que podiam sentir, mas no descrever.  por isto que, 
muitas vezes, a msica, a pintura ou a escultura exprimem melhor do que 
as palavras o que h no corao de um homem.
-  isso que voc... procura? - O marqus no respondeu. Creio que 
compreendo. E, de certo modo,  assustador, porque o que est fora de ns 
 muito maior e muito mais poderoso do que ns. - Suspirou. - Isto me faz 
sentir muito pequena e... sem importncia. Mesmo assim, quero fazer parte 
disto.
- Ningum  sem importncia para si mesmo - declarou o marqus. - E acho 
que somos todos muito importantes, no conjunto do universo.
- Como pode ter certeza? Como  que posso saber que no sou totalmente 
dispensvel e que, se eu desaparecesse na escurido da noite e nunca mais 
me vissem, isto em nada afetaria o mundo? E ningum ligaria ao que me 
acontecesse?
O marqus sorriu da paixo com que ela falava e virou-se para olh-la.
Os olhos de Raryana estavam negros, mas o luar brilhava em seus cabelos,
e ele notou a brancura do pescoo e dos ombros, a delicadeza das mos que
descansavam na amurada.
- Est sendo muito modesta, hoje. No  muito seu gnero.
- Tenho medo. No de perigos fsicos, mas de deixar a vida passar sem 
viv-la realmente, sem conhecer as coisas que esto alm de mim mesma. - 
Havia um soluo em sua voz. - Assim como voc, e talvez como todo mundo, 
estou a procura de um... ideal. Se no o encontrar, ser um fracasso 
total.
- Acho que voc sempre encontrar o que procurar.
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O marqus pareceu muito tranquilizador. Ela o fitou, viu-o alto e de
ombros largos, e achou que jamais teria medo, enquanto estivesse a seu
lado.
- Voc  muito bonita, Raryana - disse ele, em voz baixa e grave. - Fao 
votos que seja feliz.
Ela sentiu todo o corpo vibrar. Ento, enquanto se olhavam, algo de 
magntico se passou entre eles. Era uma coisa que Raryana no sabia 
explicar, mas estava entre os dois, vibrando no ar, impossibilitando-a de 
se mover.
Por um momento, ficaram imveis e silenciosos. Depois, ela sentiu os 
lbios do marqus sobre os seus.
Raryana no podia se mexer, no podia respirar. S o que percebia era que 
os lbios dele eram quentes e que seus braos a enlaavam completamente.
Uma sensao de alegria e excitao, como nunca havia experimentado 
antes, pareceu tomar conta dela. Seu corpo vibrou com uma intensidade 
quase dolorosa, mas, ao mesmo tempo, com uma felicidade com a qual jamais 
sonhara.
O marqus apertou-a mais e foi como se seus corpos se confundissem, 
tornando-se um s.
Era isso o que sempre tinha desejado. Detestava os homens porque sempre 
esperava por isso, essa coisa to perfeita, quase divina.
Os beijos se tornaram mais duros, mais exigentes, at Raryana sentir que
todo o seu ser se unia ao dele e no tinha mais identidade prpria.
No era ela, e sim, ele; seus lbios eram Os dele, seu corpo era o corpo
dele, numa unio perfeita.
Isso era amor!
Isso era o mistrio, a maravilha que tinha buscado na escurido; a
resposta a todos os anseios de seu esprito e a todos os desejos do
corao.
No soube quanto tempo ficou assim, nos braos do marqus, sendo beijada
por ele. Sabia apenas que no tinha conscincia de
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mais nada, do iate que se movia, das guas prateadas, das estrelas no 
cu, da escurido na terra.
S o marqus existia, num mundo dourado, mgico.
Finalmente ele ergueu a cabea e fitou-a, como que procurando algo em seu 
rosto.
Depois, bruscamente, sem uma palavra, afastou-se, deixando-a sozinha no
convs.
Chegaram ao Cairo na manh seguinte e atracaram.
Olhando pela vigia de sua cabine, Raryana viu os barcos-casas e os navios 
ancorados no muito longe deles.
Frotas de giyasat, com seus mastros finos apontados para o cu, com as 
velas rizadas, estavam no meio do rio, enquanto celuccas desciam o rio 
lentamente, com sua carga de cana-de-acar, cereais, arroz e caf.
Raryana tinha ansiado por aquele momento da chegada, mas agora no podia 
pensar em outra coisa, a no ser no marqus e no modo como a beijara na 
noite anterior.
Naquele momento, soube que lhe pertencia e que, se ele a deixasse, nunca 
mais seria a mesma.
No imaginava que um beijo pudesse ser to maravilhoso, to perfeito, e 
que no apenas seus lbios, mas todo o seu ser, conhecesse um xtase 
indescritvel.
A sensao que o marqus havia despertado nela era como uma chama a 
abrasar seus sentidos. Agora compreendia por que todo mundo ansiava por 
amor, por que reis renunciavam a seus tronos, naes iam  guerra e 
homens preferiam morrer a perder esse xtase que os transformava, de 
meros seres humanos, em deuses.
- Eu o amo... eu o amo... - murmurou.
Mas, quando foi para a cama sem tornar a v-lo, disse a si mesma que 
aqueles beijos no tinham significado para o marqus mais do que o beijo 
que recebera de Madalena.
Ele me beijou porque a noite estava linda e eu era a nica mulher 
presente, disse a si mesma. Se houvesse outra, talvez tivesse beijado 
essa outra.
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Sentiu lgrimas nos olhos, mas esforou-se para que no rolassem.
O marqus odiava. Talvez ela o divertisse e o ajudasse a passar o tempo, 
quando no havia mais ningum. Apenas isto.
Teve vontade de gritar de frustrao, de correr para ele e se atirar a 
seus ps, pedindo que a amasse.
Mas, se fizesse isto, ele apenas a desprezaria e a deixaria o mais 
depressa possvel.
Tinha certeza de que, por consider-la uma dama, o marqus no lhe 
pediria nada mais do que um beijo.
com Madalena era diferente. Tinham feito amor! Mas estava certa de que 
era uma proposta que ele jamais lhe faria, porque contrariava seu cdigo 
de honra.
Eu o amo! Eu o amo tanto, que teria prazer em fazer tudo o que me 
pedisse, pensou, chorando.
Sabia que ele nunca lhe pediria isso; pelo menos, no enquanto estivesse 
sob sua proteo e no tivesse ningum a quem recorrer, a no ser ele.
Mesmo enquanto acalentava a ideia de que ele sugerisse um relacionamento 
diferente, depois que ela encontrasse o pai, Raryana sabia que isto era 
um sonho tolo de uma mulher apaixonada.
Tinha que me conformar com o fato de que seus beijos foram apenas um 
impulso de momento, disse de si para si. At ento, ele nem mesmo havia 
pegado sua mo. Talvez tivesse sido devido ao magnetismo do Egito, ou por 
ela ter dito que estava sozinha e com medo.
Qualquer que fosse o motivo, o marqus se afastara depois de beij-la. 
com certeza, o que para ela fora uma coisa maravilhosa, para ele nada 
significava!
Ainda era muito cedo, mas Raryana se vestiu e foi para o tombadilho, 
observar os navios no rio e as pessoas em terra. Viu as mesquitas e os 
minaretes erguendo-se acima dos telhados dos prdios, no outro lado da 
gua, e achou que o mais espetacular era a mesquita de Mohammed Ali, no 
alto do rochedo da cidadela. Ficou imaginando se poderia visit-la.
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Ouviu passos e pensou que fosse o marqus. Mas era apenas um dos 
comissrios de bordo.
- bom dia, senhorita! Levei seu desjejum para sua cabine.
- Obrigada.
Desceu, no tendo coragem de perguntar se o marqus j tomara seu 
desjejum.
Depois que terminou a refeio de pezinhos frescos e caf, ficou 
indecisa sobre se devia ir procur-lo ou saber de Hignet quais os planos 
para aquele dia. Nesse momento, Hignet apareceu, como se tivesse sido 
chamado.
- O senhor marqus lhe envia seus cumprimentos, senhorita, e quer saber 
se est pronta para irem para terra.
- Sim, estou.
Levantou-se vivamente e pegou um chapu de aba larga que tinha comprado 
em Lisboa. Colocou-o e apanhou a sombrinha branca.
- No calor,  sempre melhor sair bem cedo disse Hignet. Creio que milorde 
pretende lev-la at as pirmides.
-  justamente aonde quero ir - respondeu Raryana, ofegante.
Apanhou a bolsa branca que combinava com o vestido e correu para o 
tombadilho.
O marqus a esperava, e ela sentiu o corao acelerar. Em terra, uma 
carruagem puxada por dois cavalos estava  disposio deles.
- Achei melhor no perdermos tempo. Vamos imediatamente procurar monsieur 
Mariette e perguntar o que aconteceu com seu pai.
-  o que estou ansiosa por saber.
Procurou ler sua expresso, mas ele, deliberadamente, evitava olhar para 
ela. Sua atitude era de reserva, como se as barreiras que antes existiam 
entre os dois tivessem se erguido novamente.
Raryana subiu para a carruagem e procurou pensar na esperana de 
encontrar o pai, aps tantos meses de silncio. Em vez disto, s tinha 
conscincia da presena do marqus, achando-o muito bonito
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de terno branco, mas ao mesmo tempo temendo que estivesse arrependido do 
que havia acontecido na vspera.
Seguiram por ruas cheias de carretas, carruagens, burros, camelos e bois. 
Das lojas vinha um perfume de almscar, essncia de fosas, incenso e 
caf. Logo se viram fora da cidade, seguindo pela estrada que levava s 
pirmides.
Depois de andarem durante algum tempo em silncio, o marqus disse:
- Estive fazendo umas perguntas e parece que Mariette pode ser mesmo 
encontrado no local que est explorando.
- Ento, ele continua aqui? Eu estava com receio de que tivesse voltado 
para a Frana.
- A ideia tambm me ocorreu. Isso explicaria por que no respondeu  sua 
carta.
- Talvez papai esteja com ele - disse, esperanosa.
O marqus no respondeu, e a moa pensou que ele devia achar pouco 
provvel.
A carruagem seguia rapidamente, e logo eles avistaram as pirmides.
Embora Raryana estivesse ansiosa por visit-las, sabia que o marqus 
tinha razo e que a primeira coisa a fazer era procurar seu pai.
Tentou afastar do pensamento uma pergunta que se repetia inmeras vezes: 
se encontrassem seu pai, quanto tempo o marqus ainda ficaria no Egito?
Sentindo certa timidez, olhava para ele de soslaio. No parecia 
interessado em conversar, de modo que ela permaneceu em silncio.
Passaram pelas primeiras pirmides e avistaram a grande pirmide de 
Zoser, assim como as palmeiras que cercavam o edifcio que o marqus 
disse ser o templo de Ptah.
Em toda a parte, havia pedras, grandes blocos de mrmore e de rochas.
Quando desceram da carruagem, Raryana achou que seria
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impossvel recriar qualquer coisa, naquela confuso de rochas e de areia.
Foi ento que viu,  esquerda, a avenida das esfinges.
No havia dvida de que era ali que Mariette tinha feito sua maravilhosa 
descoberta, dois anos antes, e Raryana ficou fascinada.
A avenida seguia mais ou menos reta por uns seis metros, virando depois, 
bruscamente, para a esquerda, at a frente de um templo pequeno, onde 
fazia um semicrculo pontilhado por esttuas.
Caminharam naquela direo e, ao ver alguns trabalhadores, o marqus 
perguntou por Mariette.
Eles indicaram o caminho. Os dois desceram por um poo profundo e logo 
ouviram o rudo de vozes e de ps, no fim de uma cmara comprida.
- Monsieur Mariette est aqui? - perguntou o marqus. Sua voz ecoou e, 
durante alguns momentos, no houve resposta.
Depois, caminhando devagar atravs do recinto que Raryana, mais tarde, 
ficaria sabendo ser a cmara morturia dos bois sagrados, eles viram um 
homem se aproximar.
- Est a minha procura, monsieur?
-  monsieur Auguste Mariette?
- Oui.
- Sou o marqus de Linwood e vim acompanhando a filha do professor 
Richard Bartlett, que est  procura do pai.
Mariette deu um grito de espanto, virando-se para Raryana de mos 
estendidas.
- Mademoiselle! Seu pai falou tanto a seu respeito que tenho a impresso 
de que j a conheo.
A moa fez uma pequena reverncia e ficou surpresa quando ele lhe beijou 
as mos.
- Sinto-me honrado, profundamente honrado por v-la aqui. S desejaria 
ter melhores notcias a respeito de seu pai.
- Ele... morreu? - perguntou Raryana, baixinho. Mariette fez um gesto 
vago com as mos.
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- A verdade, mademoiselle,  que no sei.
- Ento, onde est ele? Que lhe aconteceu?
Mariette estava de mangas arregaadas e no usava gravata. Embora suas 
roupas estivessem cobertas de areia, havia nele uma dignidade e um ar de 
autoridade que impunham respeito.
- Vamos nos sentar, mademoiselle? - sugeriu, olhando vagamente em volta.
Raryana sentou-se em uma pedra, mas o marqus permaneceu de p.
- Que aconteceu? - perguntou, impaciente para ter notcias dopai.
- Como sabe, seu pai veio se encontrar comigo h um ano. Quando descobri 
as esfinges, achei que o tmulo dos bois sagrados no devia estar muito 
longe.
- Foi o que o senhor disse em sua carta a papai.
- Eu estava certo. Posso mesmo mostrar-lhes a catacumba do boi pis, e 
no somente as criptas, como tambm um tmulo do tempo de Ramss II que 
est intacto e no foi violado por ladres.
- Que maravilha! E papai estava aqui, quando o senhor os descobriu?
- Sim, estava. Foi no dia 19 de maro do ano passado, e seu pai comeou a 
catalogar o contedo dos sarcfagos.
- O que havia neles?
- Uma poro de ossos e outros restos animais em mau estado de 
conservao, mas tambm uma poro de esttuas, objetos de ouro e outros 
de valor inestimvel.
- Se isso aconteceu em maro passado, por que papai no me escreveu, como 
costumava fazer?
- Tenho certeza de que pretendia escrever. Mas seu pai estava to 
excitado como eu, com a descoberta das catacumbas dos bois sagrados, e 
creio que no conseguamos pensar em mais nada.
Raryana no respondeu, e o francs acrescentou, em tom de desculpa:
- Tnhamos que fazer inmeras escavaes e o trabalho era tremendo, 
envolvendo grandes problemas. Pode ver a quantidade
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de areia e de p que h em toda parte. Isto cria uma espcie de nevoeiro, 
fino e penetrante. Fragmentos de rochas caam, e as vezes era difcil 
mantermos as velas acesas.
- Posso compreender que papai tenha me esquecido. Mas o que foi que lhe 
aconteceu?
Mariette respirou fundo.
- De novo, devo dizer a verdade, mademoiselle: no sei!
- Como, no sabe?
- Ele desapareceu!
- Como isso pode ter acontecido?
- Ele estava morando perto daqui, onde as acomodaes so pouco 
confortveis, e as casas, to pequenas, que no podamos morar juntos. 
Certa manh, seu pai no apareceu, e achei que talvez estivesse ocupado, 
escrevendo. Eu pretendia ir visit-lo naquela noite, mas estava cansado e 
deixei para o dia seguinte. Quando ele no apareceu novamente, mandei 
algum  sua procura e fiquei sabendo que as pessoas da casa onde morava 
pensavam que estivesse comigo.
Raryana estremeceu.
- Meu Deus!
- No fiquei preocupado. Como sabe, seu pai  meio distrado. s vezes, 
ia para o Cairo, quando precisava de alguma informao ou de um 
instrumento especial para limpar os objetos que descobramos, e no me 
avisava.
- O senhor deve ter achado estranho ele ficar ausente durante
tanto tempo.
- No comeo, no. Embora trabalhssemos muito bem juntos, gostvamos de 
ser independentes, e um no interferia no trabalho do outro.
- Papai era assim mesmo.
- Finalmente comecei a ficar preocupado. E descobri que seu pai tinha 
desaparecido por completo!
- Como isso pode ter acontecido?
- No sei. Fui at sua casa e encontrei l tudo o que era dele. Havia uma 
carta para voc, apenas comeada, mas no havia nada
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mais de importncia, a no ser os objetos que ele encontrou nos 
sarcfagos.
- Que providncias tomou para procur-lo? - perguntou o marqus, que nada 
tinha dito at o momento.
Tanto Raryana como Mariette se sobressaltaram com a interrupo.
- Perguntei a todo mundo, nas vizinhanas, se algum o tinha visto. Todos 
estavam convencidos de que ele havia ido para o deserto,  procura de 
outro lugar. - Fez uma pausa e explicou: Tnhamos realmente falado em ir 
procurar tmulos em Abidos, mas eu no podia acreditar que o professor 
partisse sem nem ao menos me participar suas intenes.
- Ento, que foi que o senhor fez? - insistiu o marqus. Mariette pareceu 
constrangido.
- Para ser franco, milorde, no soube o que fazer. Sabia que o professor 
no gostaria de que se indagasse muito a respeito de seus movimentos. Eu 
no tinha pedido permisso a ningum para convid-lo a vir aqui. O 
governo francs, que me deu uma soma substancial para continuar meu 
trabalho,  muito ciumento, quando se trata de outros pases tomarem 
conhecimento de minhas descobertas.
- Posso compreender isso. Ao mesmo tempo, o professor  um homem famoso, 
e seu desaparecimento no pode continuar secreto para sempre.
- Estou de pleno acordo, milorde. Pretendo contratar um detetive para 
tentar descobrir seu paradeiro.
Raryana e o marqus acharam que Mariette, interessado em suas escavaes,
tinha deixado as coisas correrem. Talvez se preocupasse com o
desaparecimento do professor, mas nada podia afast-lo da excitao e da 
emoo de suas descobertas.
- Peo-lhe que aceite minhas mais sinceras desculpas, mademoiselle.
Garanto-lhe que meu respeito e minha admirao por seu pai cresceram 
muito, com a extraordinria ajuda que ele me deu, enquanto trabalhamos 
juntos.
- Obrigada.
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- Sugiro que venha conosco, a um lugar onde possamos almoar - disse o 
marqus. - Como deve compreender, isto foi um choque para a srta. 
Bartlett, e h muitos detalhes que ela gostaria de ver esclarecidos. Acho 
que podemos fazer isto em circunstncias mais confortveis do que aqui, 
no meio da poeira e
no escuro.
- Claro, milorde. Terei muito prazer em aceitar seu convite. Mas Raryana 
no pde deixar de achar que ele lamentava as
horas que ia passar longe de suas escavaes. Para lhe ser agradvel, 
perguntou se podia ver o que j tinha descoberto. Havia no olhar de 
Mariette um brilho diferente e uma excitao em sua voz, quando a levou 
pelo corredor que se estendia por muitas cmaras, onde estavam os restos 
mumificados dos bois.
A atmosfera era sobrenatural, mas a moa ficou profundamente interessada, 
e no havia dvida de que tambm o marqus estava fascinado com o que 
via. Raryana se impressionou com as perguntas que ele fazia e o 
conhecimento que parecia ter sobre os bois sagrados.
Indo de uma cmara morturia a outra, Mariette lhes mostrou os sarcfagos 
de granito preto e vermelho, cada qual feito numa s pea, pesando mais 
ou menos setenta e duas toneladas e medindo quase trs metros de altura.
- Houve muitos roubos? - perguntou o marqus, quando saram para a luz do 
Sol.
- Encontrei dois tmulos intactos. Mas, sem a menor dvida, os 
saqueadores causaram um mal incalculvel, no apenas roubando as 
estatuetas fnebres, como derrubando paredes e fazendo com que, em muitos 
lugares, o teto no seja seguro.
- Saqueadores modernos ou antigos? Mariette encolheu os ombros.
- Os saqueadores existiram em todas as pocas, milorde. Sinto dio deles, 
cada vez que percebo quantos registros histricos destruram e quanto 
conhecimento se perdeu.
- Compreendo perfeitamente.
Quando chegaram  carruagem, Mariette os deixou e foi para a
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tenda perto das escavaes, onde guardava uma muda de roupa.
Voltou dali a pouco, muito mais apresentvel, e s ento Raryana notou 
que era um homem bastante atraente.
Pelo que o pai lhe contara, ele devia ter apenas trinta e um anos. Era 
extraordinrio o que havia realizado, em vista da oposio das 
autoridades e, principalmente, dos agentes do quediva, o chefe do Egito, 
que certa vez tentou acabar com as escavaes e confiscar o que havia 
sido encontrado.
Ao relatar o que acontecera, Mariette confessou, com uma franqueza 
simptica:
-  verdade que estive escavando sem a devida permisso e, durante algum 
tempo, esperei por essa interveno.
- Mas agora tem permisso legal, no? - perguntou o marqus.
- Sim, felizmente. Mas sempre corro o risco de visitas inoportunas dos 
negociantes do Cairo, que tm um mercado fcil para a venda de esttuas 
de bronze descobertas nas escavaes e, naturalmente, para tudo o que for 
de ouro. - Olhando para alguns dos operrios, disse, em tom preocupado: - 
No posso confiar em ningum! Os homens que trabalham para mim procuram 
esconder os objetos pequenos que encontram.
- Isso deve tornar as coisas muito difceis para o senhor comentou 
Raryana.
- Seu pai achava que, no Egito, havia mais desses roubos do que em 
qualquer outro lugar do mundo.
Conseguiram uma refeio pouco apetitosa numa pequena penso perto das 
pirmides.
Raryana no se interessou pelo que comeu, mas achou que o marqus olhava 
para a comida com desprezo, ao passo que Mariette comia tudo o que punham 
 sua frente.
Agora que estavam fora das catacumbas, ele se tornara menos arquelogo e 
mais um francs jovem e ardente.
A moa percebeu que ele a achava atraente e que havia em seu olhar aquela 
expresso que vira antes e que sempre achara detestvel.
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Como admirava Mariette, e como ele tinha sido amigo de seu pai, Raryana 
no se importou. Na verdade, at apreciava a companhia dele e os elogios 
que lhe fazia.
- Seu pai falou a seu respeito tantas vezes! Disse que era muito bonita, 
e agora vejo que no exagerou!
Ela sorriu.
- No acredito que papai e o senhor tenham falado de outra coisa, a no 
ser de suas descobertas.
- s vezes,  noite, ficvamos muito sentimentais a respeito daqueles que 
tnhamos deixado em casa.
- Papai estava habituado a viver sozinho, mas o senhor, depois de ter 
morado em Paris, deve ter achado isto muito aborrecido.
- Adoro o deserto! Mas, s vezes, desejo ter a meu lado uma mulher como a 
senhorita, algum que compreenda o que estou fazendo, que me encoraje e 
me inspire.
O marqus empurrou sua cadeira, que rangeu no cho de madeira.
- Acho que devemos discutir o objetivo de nossa visita, Raryana - disse, 
em tom brusco. - E isto  procurar saber que providncias foram tomadas 
para descobrir seu pai.
- O que podemos fazer? - perguntou ela a Mariette.
- Sinceramente, no sei. Podem procurar as autoridades, mas acho que no 
mostraro muito interesse. Como j disse, talvez se aborream, porque seu 
pai  ingls e, portanto, no  responsvel pelo que  descoberto aqui.
- Papai no ia querer tirar nada do Egito!
- Eu sei disso e a senhorita sabe. Mas  muito difcil convencer as 
autoridades.
- Parece que nossa tarefa vai ser muito difcil - observou o marqus, 
seco. Pediu a conta e acrescentou: - Por causa do calor, sugiro, 
monsieur, que a srta. Bartlett e eu voltemos para o Cairo. Talvez 
possamos vir visit-lo amanh. Se tiver sugestes a apresentar, teremos 
prazer em ouvi-las. Tenho certeza de que a srta. Bartlett tambm gostaria 
que os pertences do pai fossem empacotados e entregues a seus cuidados.
100
- Creio que no h muita coisa - respondeu Mariette, vagamente. - Deixei 
tudo na casa onde ele morava.
- Nesse caso,  possvel que tambm tenham desaparecido. Raryana olhou 
para o marqus, perplexa. Tinha a impresso de
que ele estava tentando, deliberadamente, constranger Mariette. Mas ela 
nada podia fazer a respeito, a no ser agradecer ao francs calorosamente 
por tudo o que lhes havia mostrado.
- Foi um grande prazer, mademoiselle. - Por seu tom de voz, no havia 
dvida de que estava sendo sincero. Acrescentou em voz baixa: - Quero v-
la amanh. At l, pensarei em alguma coisa que possa ajud-la.
Segurou a mo de Raryana e beijou-a, embora no fosse costume beijar a 
mo de uma moa solteira. Depois, apressou-se a voltar para o trabalho, 
parecendo ansioso para recomear suas escavaes.
- Sinto muito a respeito de seu pai - disse o marqus, quando voltavam 
para o Cairo.
- Acho que no  pior do que eu esperava. Para dizer a verdade, tinha 
pouca esperana de encontr-lo vivo.
- Est convencida de que morreu?
- Acho que no h outra explicao. Mas... como morreu? E por qu? E 
onde?  o que eu gostaria de saber. - Suspirou. Assim que vi as cmaras 
morturias, soube que papai nunca partiria subitamente, quando havia 
tanta coisa para descobrir. Era exatamente o tipo de lugar que ele 
adorava e onde trabalharia at que a ltima pedra fosse catalogada.
- Sinto muito.
Raryana no respondeu. Uma nuvem de depresso parecia envolv-la. No 
pensava tanto na morte do pai, mas no fato de que agora estava sozinha, 
completamente sozinha no mundo.
O futuro parecia escuro e vazio.
101

CAPITULO VI

Como fazia muito calor, Raryana foi descansar, depois do almoo, mas
sabia que o marqus tinha ido para terra e ficou imaginando o que iria
ele fazer l.
Depois que saram das escavaes, no tinham ficado a ss, a no ser na 
carruagem aberta.
Sentia que ele estava numa estranha disposio de esprito, que ela no 
compreendia. Isto a perturbava, porque tinha certeza de que, de certo 
modo, se relacionava com o fato de t-la beijado, na vspera.
No podia imaginar por que isto o preocupava.
Quanto a ela, bastava pensar nos beijos para reviver a magia e o 
encantamento dos lbios dele nos seus, de sentir-se unida a ele a ponto 
de no parecerem duas pessoas, mas uma s.
Obviamente, com ele havia sido diferente; apenas um momento de interesse 
por ela, devido  magia da noite. Agora, tornava a detest-la!
No suportava pensar que o marqus a odiava como mulher, quando em tudo o 
mais demonstrava bondade e considerao.
Talvez ele tivesse ido tratar de sua viagem de volta  Inglaterra, 
pensou, desesperada.
Tinha certeza de que jamais permitiria que ela ficasse sozinha no Egito. 
Alm do mais, agora que conhecia o Cairo, Raryana sabia que sua ideia de 
procurar emprego ali era absurda.
102
A cidade era muito grande, muito estranha, com uma vida completamente
diferente da que levava em casa.
Achou que talvez pudesse pedir a Mariette para trabalhar com ele, mas os 
arquelogos detestam a intromisso de mulheres. O pai no gostava nem 
mesmo quando ela e a me visitavam os lugares onde fazia escavaes.
Embora Mariette a tivesse olhado com admirao, no ia querer que o 
relacionamento entre eles se tornasse mais do que social.
Raryana havia notado como andava depressa, ao lev-los para visitar as 
cmaras morturias.  luz fraca das velas, no puderam ver bem os 
sarcfagos nem ter uma impresso clara do que ela sabia ser um culto 
perdido.
Quando visitava, com o pai, as escavaes que estavam sendo feitas, ele
sempre dizia:
- No olhe apenas; pense e sinta. Deixe que sua percepo visualize como
eram aquelas pessoas, tantos sculos atrs. Procure entrar em contato com
suas vibraes. Isto lhe ensinar mais do que mil livros.
Naquela manh, tentara seguir o conselho do pai, mas no tivera 
oportunidade de outra coisa a no ser ouvir o que Mariette dizia, 
mostrando-lhe os lugares que haviam sido saqueados e o trabalho que ele e
o professor Bartlett tinham feito.
Havia tambm os operrios rabes, batendo nos tmulos abertos e levando 
embora cestas cheias de areia, ao longo da cmara morturia. Era uma fila 
interminvel de homens, e Raryana notou a curiosidade com que a olhavam.
Devem ter me achado muito estranha, com meu vestido branco, pensou.
A presena daqueles homens afetou seus pensamentos e seus sentimentos, e, 
de repente, teve vontade de usar a percepo que o pai lhe ensinara a
desenvolver.
Talvez, quem sabe?, chegasse a ter uma ideia do que havia acontecido ao 
pai, se pudesse ficar sozinha na quietude do tmulo...
No dormiu durante a tarde, planejando o que dizer ao marqus.
103
Quando percebeu que ele voltara a bordo, levantou-se e foi a seu 
encontro.
Ele no estava no salo, como esperava, e sim, no tombadilho olhando para 
o Nilo. Era um quadro colorido, e no rio havia grande atividade. Botes 
passavam continuamente ao lado do iate, oferecendo frutas, colares, 
tapetes e vrias outras mercadorias. O marqus tentou no lhes dar 
ateno, mas os vendedores egpcios eram persistentes e se recusavam a ir 
embora.
Nessas circunstncias, Raryana no pde falar com ele em particular. 
Conversaram sobre o cenrio, e Osborne apontou para alguns edifcios 
interessantes na outra margem. Os dois ficaram ali at a hora de se 
vestirem para o jantar.
Depois de um banho frio preparado por Hignet, Raryana colocou um de seus 
vestidos mais bonitos e olhou-se no espelho, com a esperana de que o 
marqus a achasse atraente.
Ontem  noite, ele me beijou, pensou a moa, sentindo um estremecimento
de felicidade.
Poderia alguma coisa ser mais maravilhosa e mais perfeita?
Mas ele devia ter esquecido e, agora, ela parecia no atra-lo mais.
Quando estavam no tombadilho, Raryana tivera muita vontade de lhe 
perguntar o que tinha ido fazer em terra, mas sentira timidez e medo ao 
mesmo tempo.
E se tivesse providenciado para ela voltar para a Inglaterra?
No havia dvida de que, agora que o pai estava desaparecido ou morto, o 
tio era seu tutor.
Pensou em lorde Stroud  sua espera. Sabia que, se voltasse para a 
Inglaterra, no poderia mais lhe escapar, tendo que obedecer s ordens do 
tio.
Preferia morrer! E estava sendo sincera.
Teria medo de ficar sozinha no Egito, mas isto no era nada, comparado 
com o medo de casar com um homem por quem sentia repulsa, um homem que 
legalmente teria o direito de toc-la e abra-la.
104
Sentiria horror e repugnncia, ao ser tocada por qualquer um, Com 
exceo do marqus.
- A morte no  a pior coisa do mundo - disse, baixinho.
No s no pensamento dos egpcios, mas no de todo mundo, a morte era 
escurido, e a vida, a luz do Sol.
No que lhe dizia respeito, estar ao Sol significava estar com o marqus. 
Sem ele, s havia escurido e uma solido que no ousaria enfrentar.
Depois, com um orgulho que fazia parte de seu carter, decidiu que, se o 
marqus no a quisesse, devia deix-lo sem fazer uma cena, como 
prometera.
Se quebrasse sua promessa, certamente ele a desprezaria.
Raryana poderia suportar qualquer coisa, menos ver o marqus se separar 
dela com desprezo e achando que tinha sido uma intrusa e um fardo.
Entrou no salo, de cabea erguida, certa de que, se no podia ter o 
mesmo encanto de Madalena, pelo menos se apresentava da melhor maneira 
possvel.
Agora que o calor diminura, uma brisa soprava no rio e a temperatura no 
iate era fresca e agradvel.
A gua batia nos lados do barco; da margem vinha um perfume de flores 
silvestres.
Tudo isso tinha um encanto que Raryana teria apreciado, se seus 
pensamentos no estivessem centralizados no marqus.
Ele havia trocado de roupa para o jantar e se levantou para receb-la.
- Voc descansou? - Ela sorriu; ele continuou, sem esperar resposta: - 
Compreendo que o que ouviu hoje tenha sido um choque. Fez tambm muito 
calor, e achei que seria agradvel jantarmos no tombadilho.
- Seria muito agradvel mesmo.
Os empregados tinham colocado um toldo no tombadilho, assim como uma 
espcie de biombo, para proteg-los dos olhares curiosos dos transeuntes, 
na margem.
105
A mesa estava decorada com flores, e Raryana tomou um refresco feito de 
lima, que achou delicioso.
Depois do almoo insosso que lhes havia sido servido, os pratos do chef 
do iate teriam satisfeito o apetite de uma pessoa muito mais exigente.
Enquanto jantava, o marqus falou da histria do Egito. Terminada a
refeio, e enquanto tomava uma xcara de caf turco aucarado, Raryana
criou coragem e disse:
- Tenho uma coisa para lhe pedir.
- O que ?
Teve a impresso de que o marqus estava um tanto apreensivo. Durante o 
jantar, j havia sentido qualquer coisa de impessoal em todos os assuntos 
que abordava. Era como se evitasse de propsito qualquer conversa que
pudesse parecer ntima ou considerada mais do que social entre duas
pessoas que nada mais eram do que simples conhecidos.
Bastava olhar para o marqus, para Raryana desejar correr para seus 
braos. Mas, achando que ele no a queria, tentou desesperadamente se 
comportar com a dignidade de uma dama.
Agora que estavam a ss, era a ocasio de lhe dizer o que queria.
- Vai achar muito estranho, mas sinto que devo voltar s escavaes de 
monsieur Mariette, em Mnfis.
- Hoje  noite?
- Sim, hoje  noite, depois que os operrios tiverem ido embora e 
monsieur tambm.
- Porqu?
Raryana hesitou um momento.
- Quero... sentir o local. Tenho a ideia, embora possa parecer absurda, 
de que me sentirei mais perto de papai e poderei saber o que lhe 
aconteceu.
- Quer dizer, por clarividncia?
- Creio que se pode dizer que sim.  o que papai chamava de "sexto 
sentido", e que usava, quando queria saber se valia a pena
106
fazer uma escavao. Sempre acertava, mesmo quando no havia nada em 
cima, a no ser rochas e areia.
- E quer ir sozinha?
Raryana no respondeu, mas fitou-o com olhar splice. No havia 
necessidade de palavras para expressar o que desejava. Sentiu como se 
tivesse falado alto o quanto queria que ele a acompanhasse, o quanto 
ansiava que sempre ficasse a seu lado.
Estavam separados pela mesa decorada de flores, mas compreenderam-se sem 
palavras, e, por um momento, seus espritos se encontraram. Houve entre 
eles uma compreenso que parecia ter existido desde o princpio dos 
sculos.
Ento, o marqus disse:
- Muito bem; se  o que deseja, eu a acompanharei.
Os olhos dela se iluminaram. A seguir desviou o olhar, timidamente, e
disse, em voz baixa:
- Muito obrigada!
Desceu at a cabine a fim de apanhar um xale para pr nos ombros, caso 
refrescasse, mais tarde, e um leno de gaze para a cabea. A poeira da 
cmara morturia poderia sujar seus cabelos, e este pensamento lhe era 
desagradvel.
Quando voltou ao tombadilho, o marqus a esperava e, na margem, uma 
carruagem aberta estava  disposio deles.
Ainda estava claro, mas logo o Sol se poria com a habitual rapidez e a 
Lua e as estrelas brilhariam sobre as pirmides.
Desejava v-las  noite, ao lado do marqus, mas no sabia se ele ficaria 
impressionado com a beleza do cenrio ou de sua companheira.
Teve a impresso de que, na carruagem, ele se sentou um pouco mais 
afastado do que o necessrio.
Logo chegaram ao deserto, deixando para trs as casas do Cairo. Havia 
agora a estranha beleza das pirmides, douradas ao pr-do-sol, 
delineando-se contra o cu.
- Entre as sete maravilhas do mundo, somente as pirmides resistiram ao 
tempo e ao poder destruidor do homem - observou o marqus.
107
Falou em tom frio e impessoal, mas Raryana desejou pegar sua mo e 
perguntar se as pirmides eram para ele to misteriosas e to excitantes
como eram para ela.
No passado, sempre pensara que, quando uma pessoa via alguma coisa muito
bonita ou emocionante, esta devia ser partilhada con outra.
Compreendia o que o pai sentia, a cada novidade em suas exploraes,
quando queria encontrar outro arquelogo com quem pudesse partilhar suas 
descobertas. Ou ento, no encontrando um colega, gostava de mostrar seu 
trabalho  mulher e  filha.
Era como se a pessoa no pudesse ser egosta, a ponto de guardar tudo 
para si mesma. Agora, o encanto e a magia das pirmides eram uma coisa 
que gostaria de dar ao marqus, como um presente. Mas no podia expressar 
o que sentia e continuou em silncio.
Quando a noite caiu, chegaram  grande pirmide de Zoser e o cocheiro fez 
a carruagem parar.
No estavam no lugar onde tinham estacionado durante o dia. mas,  luz 
das estrelas que comeavam a brilhar no cu, era fcil ver que,
caminhando mais um pouco, chegariam  avenida das esfinges.
O marqus disse ao homem que esperasse sob umas palmeiras. Pegando o 
brao de Raryana, ajudou-a a caminhar por sobre as pedras e a areia, 
entre as fileiras de esttuas. Teve a impresso de que eram uma 
sacerdotisa e um sacerdote do templo.
O marqus tinha trazido uma lanterna com vela, que Hignet colocara na 
carruagem, junto com uma caixa de fsforos.
-  a melhor lanterna que temos a bordo, milorde - dissera ele. - Melhor
at do que a que os ciganos usam.
Raryana pensou que, se tivesse vindo sozinha, provavelmente teria 
esquecido de trazer uma vela. Sabia tambm que o marqus estava com uma 
pequena pistola no bolso. Raryana vira quando ele a guardara 
discretamente no bolso, ainda a bordo do iate, e lhe parecera uma boa 
precauo.
108
Isto a fez pensar que ele achava que a expedio podia oferecer algum 
perigo.
Raryana no podia acreditar que houvesse perigo em visitar os tmulos dos 
bois pis, a no ser, o de serem assaltados.
Compreendeu que teria sido uma grande tolice, se viesse sozinha at ali. 
Vira os mendigos que fervilhavam no Cairo e em Alexandria, e compreendeu 
que, sem a proteo de um homem, sua bolsa e qualquer jia que usasse 
poderiam ser roubadas.
Chegaram  entrada do que parecia uma espcie de templo, comparvel aos 
construdos em homenagem aos nobres egpcios. O marqus acendeu a vela da 
lanterna e foi fcil encontrarem o poo que levava  cmara morturia.
Ele foi na frente e, pegando a mo dela, ajudou-a a descer.
Como esperava, havia ali o silncio estranho e profundo dos mortos e o 
cheiro do passado, que sempre parecia existir em cemitrios.
Agora, ela ia na frente. A luz da vela fazia com que as cmaras 
separadas, onde os bois tinham sido enterrados, se assemelhassem a 
cavernas sombrias.
Os saqueadores tinham tirado as tampas pesadas dos sarcfagos. Alguns 
haviam sido quebrados e os pedaos estavam no cho; outros, depois de 
saqueados, tinham sido cobertos pela areia que se acumulava 
permanentemente.
Raryana caminhou pelo corredor, com dificuldade para respirar, mas 
decidida a chegar ao fim, onde os tmulos intactos ainda estavam sendo 
escavados.
A vela lanava um crculo de luz  volta de Raryana. Para o marqus, ela 
parecia uma criana abandonada, movendo-se silenciosamente diante dele.
A moa parou. Tinha chegado quase ao fim do corredor e queria pensar, se 
concentrar como um mdium em transe, para poder mergulhar no passado.
De repente, ouviram vozes!
Ela se virou e viu que o marqus estava logo atrs e que tambm ele 
ouvira alguma coisa.
109
Homens conversavam em rabe, e Raryana compreendeu que estavam descendo 
pelo poo, em direo  cmara morturia.
O marqus apagou a vela e, para surpresa da moa, puxou-a para um dos 
tmulos ao lado.
Ela sentiu a superfcie de granito dos sarcfagos. Mal havia espao entre 
eles e a parede, ficando Raryana para dentro e o marqus mais prximo ao 
corredor.
As vozes se aproximavam. Os homens falavam baixo, de modo que ela no 
entendeu o que diziam.
Surgiu a luz de uma vela, e vrios homens entraram na cmara morturia. 
Raryana contou as cabeas com turbante. Eram seis.
Os homens pararam, e Raryana ouviu um rudo que pareceu o de instrumentos 
atirados no cho.
-  melhor acendermos mais algumas velas - disse um deles, em rabe.
- Vamos precisar delas - respondeu um outro, em voz mais profunda. - O 
tmulo fechado fica na outra extremidade.
Sobressaltada, Raryana percebeu que eram saqueadores que tinham vindo 
abrir o tmulo do qual monsieur Mariette lhes falara: o do boi que tinha 
sido enterrado no reinado de Ramss II.
Sentiu uma onda de clera, ao pensar que iam roubar um pedao da Histria 
que ficaria perdido para sempre.
Teve vontade de enfrent-los e dizer o que pensava de seu vandalismo. 
Depois, mesmo enquanto esta ideia passava por sua mente, ouviu um deles 
dizer:
-  melhor que algum fique de guarda.
- Eu fico - respondeu um dos homens. - Pois no guardei vocs, quando 
aquele ingls se meteu em nossos planos? Rugindo como um leo, teria 
mandado todos para a cadeia, se eu no o silenciasse.
Outras velas haviam sido acesas. Agora, Raryana via que o homem que 
falara era moo e usava um turbante branco. Um outro, mais velho e de 
rosto enrugado, disse:
- Cale a boca, Ali. No conte prosa. Se algum o ouvisse, voc seria 
executado como assassino!
110
- No tenho medo. Confiem em mim, como confiaram antes. Meu punhal j
serviu e vai servir de novo, se algum nos interromper.
- Muito bem, fique de guarda - respondeu o homem mais velho, a 
contragosto. - Ns vamos comear a trabalhar.
De repente, Raryana percebeu que o marqus estava muito perto dela. Havia 
tirado a pistola do bolso e parecia muito tenso.
O sentido das palavras dos homens penetrou em sua mente, e ficou 
horrorizada.
Foram eles que tinham assassinado seu pai!
Mais ainda, esses ladres e assassinos a matariam e matariam o marqus, 
se os descobrissem ali.
Comeou a tremer. com uma pistola que s tinha duas balas, seria 
impossvel, para o marqus, proteger a ambos.
Ouviu a voz de um outro, que ainda no falara:
- No  melhor darmos uma espiada, para ver se h algum por a, antes de 
comearmos a trabalhar? Lembrem-se do ingls que nos pegou de surpresa.
- Se houvesse algum aqui, teramos visto luz - disse o mais velho.
- vou examinar para vocs - prometeu Ali. - Comecem a cavar. Vai levar 
tempo, e a noite no dura muito.
- Quem  que est dando ordens? - perguntou um outro.
- Ali tem razo - respondeu o mais velho. - H muitos esconderijos por 
aqui, e no queremos ser apanhados de surpresa. Lembrem-se do que 
aconteceu em Abidos, na semana passada.
- Escapamos por um triz - gemeu um dos outros.
Raryana sentiu que o brao esquerdo do marqus a puxava contra ele. 
Percebeu que tinha a pistola na mo direita e que a amparava porque sabia 
que ela estava com medo.
Estava realmente tremendo, porque a cena era aterradora: a luz trmula 
das velas, as cabeas dos homens que mal podia ver acima da parede 
quebrada de um tmulo, a conversa reveladora que s ela entendia, porque 
o marqus no falava rabe.
Ao mesmo tempo, sabia que ele compreendia que estavam em
111
perigo, pois era notrio que os saqueadores de tmulos eram implacveis,
quando descobertos. Sempre havia lutas e assassinatos, se um bando de
ladres encontrava um outro. Todos os arquelogos contavam histrias de 
lutas com os ladres, que s vezes atacavam at mesmo em pleno dia.
O marqus estava admirado de Mariette no ter deixado alguns homens de 
guarda e acreditava que isso se devia ao fato de os sarcfagos dos bois 
no serem to valiosos como os tmulos dos faras.
Ao visitar as escavaes, de manh, soubera que, em certos dias do ano, 
por ocasio dos ritos da morte de um boi pis, os habitantes de Mnfis 
vinham visitar os tmulos. Para celebrar este ato religioso, traziam uma 
sele, uma pedra quadrada arredondada em cima, que era deixada nas 
paredes do sarcfago. Costumava ter uma inscrio em homenagem ao deus, 
com o nome do visitante e de sua famlia. Isto era de grande importncia 
histrica, embora no tivesse valor para os ladres.
Se fossem quebradas ou danificadas pelos vndalos, ou tratadas com 
descuido pelos pesquisadores, a histria do Egito perderia muito com 
isto. Tinha sido um descuido de Mariette no tomar precaues. Mas como 
poderia ele imaginar que os saqueadores iriam at o ltimo tmulo, e em 
to grande nmero?
O marqus ficou imaginando se um tiro para o ar os assustaria, ou se 
seria prefervel matar um deles e rezar para que os outros fugissem. 
Embora sem entender uma palavra do que diziam, sabia que no hesitariam 
em mat-lo e em matar Raryana, enterrando-os depois na areia, num lugar 
onde provavelmente jamais seriam encontrados.
Calculou que isto acontecera com o professor Bartlett, e censurou-se por 
ter sido um tolo, vindo sem trazer vrios marinheiros para proteg-los.
Se ao menos tivessem deixado a carruagem no mesmo lugar onde ficara de 
manh, talvez os ladres, ao v-la, tivessem adiado o roubo para outra 
noite! Mas, como estava embaixo das palmeiras, no tinha sido vista.
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O dedo do marqus se firmou no gatilho.
Viu os homens pegarem seus instrumentos e um deles lanar a luz no 
primeiro sarcfago, na entrada da cmara morturia. Logo chegariam ao 
ponto onde ele e Raryana estavam.
Percebeu ento que o sarcfago atrs do qual se escondiam era um dos que
haviam brutalmente saqueado no passado. A parte de cima tinha sido
arrancada e arrebentada, assim como os lados, de modo que no lhes dava a 
proteo que outros poderiam dar.
Era apenas uma questo de tempo, at serem descobertos. O marqus decidiu 
que o melhor seria matar um dos bandidos e guardar a segunda bala para o 
caso de eles avanarem.
Ento, ouviu-se um som estranho, inesperado.
Por um momento, Osborne pensou que se enganara e que apenas havia 
imaginado. Depois percebeu que os ladres ficaram imveis, permanecendo 
tambm  escuta.
Era um som baixo, profundo, quase como o zumbido de uma abelha. Aos 
poucos, tornou-se mais alto, parecendo to ressonante e to insistente, 
que comeou a ecoar pelas paredes e pelo teto.
Atnito, o marqus percebeu que vinha de Raryana!
Parecia vir do ntimo de seu corpo, vibrante, tornando-se cada vez mais 
insistente. Era estranho e, ao mesmo tempo, assustador.
Os ladres estavam apavorados. De repente, aos gritos de "os deuses! Os 
deuses!" Ali fugiu pelo corredor e os outros o
seguiram.
Mas o som sobrenatural, vibrante, continuou, at os ladres 
desaparecerem, deixando a cmara s escuras.
Por um momento, o marqus e Raryana ficaram imveis, at que, 
instintivamente, ela se virou e ele a beijou.
Raryana ainda tremia, mas no de medo.
Tudo desapareceu, e era impossvel pensar em outra coisa, a no ser na 
proximidade do corpo do marqus e em seu beijo, um beijo ainda mais 
ardente, mais pungente, devido ao medo pelo qual tinha passado. Quando 
finalmente ele ergueu a cabea, a moa no se conteve e murmurou:
- Amo voc! Amo voc!
113
Ele a puxou contra o peito e disse, rouco:
- Vamos sair daqui, minha querida.
Ela sentiu uma onda de felicidade por ele ter dito "querida". Mas o 
marqus j se dirigia para o corredor. s cegas, segurando a mo dele, 
Raryana o seguiu. Osborne riscou um fsforo e acendeu a vela.
- Precisamos ter cuidado, muito cuidado, caso os ladres estejam 
espreitando l fora.
- Eles teriam nos matado! - disse ela, em voz baixa.
- Garanto que sim.
- Mataram papai! O homem chamado Ali... gabou-se disso.
- S o que importa agora  eu lev-la para um lugar seguro. Enlaou-a 
pela cintura, e seguiram lentamente pelo corredor.
examinando o caminho com ateno. Mas o corao de Raryana vibrava de 
alegria.
Ele a beijara! E a chamara de "querida"! Se tivesse que morrer naquele 
minuto, no se importaria.
Eu o amo! Eu o amo!, tinha vontade de gritar. Mas sabia que ele estava 
preocupado.
Quando chegaram ao poo, o marqus subiu na frente, com a pistola na mo 
direita.
Ao chegarem em cima, apagou a vela e ficou olhando o deserto, por entre 
as colunas quebradas.
Havia ali pedaos grandes de rocha; ao luar, tudo tinha uma beleza que 
no tinha de dia.
Viram a pirmide delineando-se contra o cu, mas, at onde a vista 
alcanava, no notaram nenhum ser humano.
O marqus guardou a pistola no bolso e, segurando o brao de Raryana, 
levou-a depressa para o lugar onde estava a carruagem, sob as palmeiras.
As pedras machucavam os ps da moa e a areia entrava em suas sandlias, 
mas ela nada sentia, alm de uma felicidade sem limites.
Chegaram  carruagem.
O cocheiro, que cochilava sentado sob uma palmeira, levantou-se de um 
salto. Tirou os embornais colocados nos
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focinhos dos cavalos para que no fizessem rudo e pulou para a boleia.
O marqus ajudou Raryana a subir e sentou-se ao lado dela, colocando a 
lanterna no assento diante deles. Quando a carruagem partiu, pegou a moa 
nos braos e beijou-a.
Percebeu que ela estremeceu e fitou-a, vendo em seu rosto uma expresso 
de felicidade.
- Est salva, meu amor! Conte-me como foi que nos salvou. Como conseguiu 
emitir aquele som incrvel, sobrenatural?
Ela riu, de pura felicidade.
- Sabe o que era?
- No tenho a mnima ideia. E no posso imaginar como uma pessoa pequena 
como voc conseguiu produzir os sons de uma orquestra, saindo das 
profundezas da terra.
-  a orao dos monges budistas. Eles cantam, ou antes, entoam, o Aum 
Mani Padme Aum.
- Mas  claro! Sei o que significa: "Salve, Jia no Lotus".
- Os monges entoam isso inmeras vezes, e suas vozes se tornam mais 
profundas e mais claras. Por esse motivo, no tm problemas de garganta, 
por mais velhos que fiquem.
- Como aprendeu isso?
- Papai me ensinou, quando eu era pequenina. Eu achava divertido e sentia 
ccegas no cu da boca e no nariz. Ele me fazia repetir sempre, at que 
consegui chegar  perfeio! - Em voz mais grave, continuou: - Eu tinha 
me esquecido disso, quando, de repente, ouvi aqueles homens dizerem que 
iam procurar para ver se havia algum e que matariam a quem encontrassem. 
Percebi, ento, o que devia fazer.
O marqus puxou-a para mais perto e beijou-lhe a testa.
- Voc nos salvou, menina querida e inteligente! Raryana fitou-o, e ele 
disse, suavemente:
- Amo voc! Amo-a h muito tempo. Quando a beijei, ontem  noite, tive 
medo de que falasse srio, quando dizia que detestava os homens e, por 
conseguinte, me detestava tambm.
- Eu o amo! Mas, como sabia que detestava as mulheres, achei
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que seu beijo, que para mim foi a coisa mais maravilhosa do mundo, nada 
significava para voc.
- Significou mais do que eu posso explicar, mais do que qualquer beijo 
jamais significou. Ento, fiquei sabendo o quanto a amava e que nunca 
tinha amado ningum, at agora. - Ele riu. Durante muito tempo, lutei 
contra o que sentia por voc, Raryana Para dizer a verdade, durante todo 
o tempo em que navegamos pelo Mediterrneo.
- Gostaria de ter sabido. Descobri que o amava... quando estvamos em
Lisboa.
O marqus segurou o queixo dela.
- Teve cime, minha amada?
- Um cime horrvel! Era uma coisa que nunca tinha sentido antes, e muito 
dolorosa.
- No h motivo para cime, nem nunca haver, porque voc  diferente de 
todas as mulheres, minha querida.
- Talvez eu fique igual s outras, agora que amo voc.
- Nunca poderia ser igual a quem quer que seja, pela simples razo de que 
a amo. Amo-a mais do que sou capaz de dizer.
Os lbios de ambos estavam muito prximos. O marqus fitou-a e depois lhe 
beijou a testa, os olhos, as faces, o queixo.
Eram beijos loucos, apaixonados, e Raryana soube que isto acontecia no 
apenas porque estava excitado, como tambm porque era um alvio, aps a 
agonia que devia ter sentido, ao compreender que a vida de ambos estava 
em perigo.
- Eu o amo! Eu o amo! - repetia a moa.
Era como se ambos tivessem ressuscitado e sado de um tmulo no deserto, 
onde milhes de pessoas tinham morrido e estavam enterradas, e que 
encerrava segredos que jamais seriam descobertos.
- Eu o amo! Eu o amo!
O marqus s parou de beij-la quando entraram nas ruas do Cairo e viram 
casas e pessoas nas ruas, mas continuou segurando a mo dela.
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Ao pararem diante do iate, desceu primeiro, para ajudar Raryana, e por um 
momento a manteve contra o peito.
Depois, subiram para bordo e se dirigiram para o salo.
Os empregados correram para servi-los. Assim que Hignet apareceu, o 
marqus lhe entregou a pistola que estava em seu bolso.
- Tiveram algum aborrecimento, milorde?
- Estamos sos e salvos, graas  srta. Bartlett. Mas passamos por uma 
experincia muito desagradvel, Hignet, e precisamos de um drinque.
- O champanhe est no gelo, milorde.
- Ento, abra a garrafa!
Um criado serviu as taas, mas s quando ficou a ss com Raryana foi que 
o marqus ergueu a sua.
-  mulher mais corajosa que conheo! - disse, suavemente. Ela o encarou, 
os olhos brilhando como estrelas.
- No sou realmente corajosa. Voc sabe como tive medo, durante a 
tempestade, e quando ouvi aqueles homens dizerem que tinham matado papai 
e que matariam a quem interferisse em seus planos.
- Mas voc nos salvou!
- Acho que talvez essas coisas estejam escritas. Talvez, h muitos anos, 
quando eu era uma menininha, papai tenha tido uma inspirao... ou talvez 
fosse orientado por um poder maior do que ns a me ensinar o que fiz
hoje  noite, para que ns dois nos salvssemos.
- Acho que tem razo.
- Acha, mesmo? Ou est dizendo isso s para me agradar?
- Estou dizendo a verdade. Acho que ningum poderia ter vindo ao Egito e 
passado pelo que passamos, sem compreender que h poderes acima de ns e 
que existe uma fora, ou seja qual for seu nome, que pode salvar ou 
destruir.
- E nos salvou...
O marqus largou a taa e aproximou-se de Raryana. Abraou-a mais uma 
vez.
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- Eu a amo. Tenho que repetir isto. porque  uma experincia nova, para 
mim, dizer estas palavras e sentir o que sinto agora.
- O que est sentindo?
- Estou muito, muito apaixonado.
Ela suspirou de felicidade. E ento, antes que dissesse ao marqus o 
quanto o amava, ele comeou a beij-la novamente, e ela no pde dizer as 
palavras que cantavam em seu corao.
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CAPITULO VII

Raryana estava  janela, olhando para o deserto. No havia coisa mais
bela do que as trs pirmides ao luar, com a majestosa Esfinge  
esquerda.
Tinha sonhado que um dia veria o deserto ao lado do marqus, mas nunca 
imaginara que os dois passariam dias ali, nem que tudo fosse to 
maravilhoso.
Havia apenas o cu e o deserto sem fim.
Tinham casado na igreja ao lado da embaixada britnica e, graas ao 
embaixador, conseguiram aquela villa encantadora, ali na orla do deserto.
Era tarde, quando o marqus se despedira dela, na vspera. Raryana fora 
para a cabine, vibrando de emoo com os beijos do homem amado.
Sentia-se to feliz, que teve medo de dormir e acordar no dia seguinte
para descobrir que tudo no passava de um sonho.
- Voc precisa descansar, minha querida - disse o marqus, ternamente. - 
Passou por muita coisa, hoje, e sei que est cansada.
- No quando estou com voc.
- Temos a vida inteira  nossa frente. vou poup-la hoje  noite, mas 
depois ficaremos juntos noite e dia, porque no quero perd-la.
- Isso jamais aconteceria.
- No tenho muita certeza - respondeu, em tom meio de
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brincadeira e meio a srio. - Talvez voc me mande embora, ou desaparea
no iate de um desconhecido, e nunca mais a encontre.
Ela riu, mas sabia que o marqus desejava realmente t-la para sempre a 
seu lado e ficou emocionada ao perceber que era essencial para ele.
Como se adivinhasse seus pensamentos, Osborne disse:
- Quando for minha esposa, vou insistir para que se comporte de maneira 
mais circunspecta. Estou impressionado com os riscos que correu!
- Teria sido assustador... se voc no estivesse comigo. Deu um gritinho 
e continuou, agarrando-se a ele:
- Suponhamos que, em Londres, eu tivesse conseguido escapar e aquele 
mendigo no me segurasse. Talvez nunca mais o visse, meu bem!
- Nesse caso, voc continuaria odiando os homens e evitando-os, at que 
eu a encontrasse novamente.
- Voc no iria  minha procura! - falou, em tom acusador.
- Talvez no conscientemente, mas acho que, no fim, no escaparamos um 
do outro. Foi o destino, minha querida, que nos reuniu. O destino que fez 
com que nos amssemos!
- No  de admirar que eu o ame, mas que voc me ame...
- Voc  linda,  corajosa,  boa e compreensiva. Que mais pode um homem 
desejar de uma criaturinha?
- Quero ser tudo isso para voc! - respondeu, apaixonadamente.
O marqus abraou-a, beijou-lhe a testa e disse:
- Porque a amo e porque vou tomar conta de voc a vida inteira, ordeno-
lhe agora que v para a cama!
Ela se aconchegou mais e murmurou:
- No quero deix-lo...
- E eu no quero deix-la, minha amada, mas ser s por uma noite.
-  mesmo verdade que vamos casar amanh?
- Hoje  tarde fiz todos os preparativos para nosso casamento. Olhou-o, 
atnita.
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- Hoje  tarde, quando foi para terra? Fiquei imaginando o que tinha ido 
fazer. Mas como  que voc sabia... como  que podia ter certeza de que 
eu... casaria com voc?
- Esqueceu que a beijei? Quando nossos lbios se uniram, eu soube que 
fomos feitos um para o outro e que nada poderia nos separar. - Suspirou e 
continuou: - Ao mesmo tempo, sentia medo! Embora tivesse certeza de seu 
amor, no sabia se voc reconhecia isto, nem se continuava a me detestar,
como disse que detestava todos os homens.
- Mesmo assim, fez os preparativos para o casamento? 
-  , Depois que conversamos com Mariette, compreendi que seu pai tinha
 morrido. Sabendo o quanto  independente e, digamos, lamentavelmente
 no feminina, tive medo  de que fizesse alguma coisa horrvel, como, 
por exemplo, fugir de mim.
Raryana deu uma risadinha, lembrando-se de como tinha tido
medo de ser obrigada a se separar do marqus e como todo seu ser
ansiava por ele.
- Eu nunca o deixaria de livre e espontnea vontade.
- Como  que eu podia ter certeza? E sabia que precisava tomar conta de 
voc. Sua ideia absurda de ganhar a vida era impraticvel.  linda 
demais, minha querida, para ficar sozinha no mundo.
- Ento, voc tratou de nosso casamento!
- Quando contei ao embaixador britnico o que aconteceu com seu pai, ele 
concordou em que devamos casar imediatamente e se prontificou a cuidar 
dos documentos e papis necessrios. Apertou-a contra o peito e 
continuou: - Deixe tudo por minha conta. Daqui por diante, voc  
responsabilidade minha e no quero que se preocupe com coisa alguma... a 
no ser comigo!
- Quero cuidar de voc, quero fazer por voc coisas que ningum mais 
poder fazer.
- Vai ficar muito ocupada. E seu salrio, minha querida, ser pago em 
amor e em beijos.
Ela riu. Depois, no admitindo mais recusa, o marqus a levou at a porta 
de sua cabine.
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- Amanh  noite estaremos juntos - disse, em voz grave. Durma bem, minha 
adorada. Quero que, no dia de seu casamento, esteja mais bonita do que 
nunca.
Seria difcil no se sentir feliz e no parecer bonita, pensou Raryana.
A considerao do marqus por ela, em todos os sentidos, fez com que 
compreendesse como tudo ia ser diferente, depois que fosse sua esposa.
Ficou contente por no ter usado ainda o lindo vestido branco que tinha 
comprado em Lisboa. Era um vestido de jantar, mas no to enfeitado nem 
to vistoso como um vestido de baile. A gola larga era enfeitada com 
flores aplicadas em renda, e as mesmas flores adornavam a saia rodada.
O vestido fazia com que Raryana parecesse muito moa e muito inocente.
Estava quase pronta e arrumando os cabelos, quando Hignet veio at sua 
cabine, trazendo uma caixa onde havia um vu de renda delicadssima, e 
uma grinalda de flores de laranjeira e outras florzinhas brancas. 
Exatamente o que ela precisava para parecer uma verdadeira noiva.
Quando, um tanto timidamente, foi procurar o marqus, encontrou-o no 
salo, com um buque das mesmas flores da grinalda, alm de lrios e 
orqudeas brancas.
Ela ergueu o rosto e ele a fitou durante alguns segundos, antes de dizer:
- Est muito bonita e tem tudo o que sempre desejei e no esperava 
encontrar numa esposa.
- Quero ser agradvel, quero fazer tudo o que voc desejar de mim. Mas
acho que, quando me conhecer melhor, vai ficar... decepcionado.
O marqus sorriu.
- Estou disposto a apostar minha fortuna que nenhum de ns dois ficar 
decepcionado com o outro, e que nosso amor aumentar de intensidade, - 
medida que os anos passarem. Voc  imprevisvel, minha linda
aventureira, e sempre terei medo de que
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ache a vida a meu lado montona e deseje sair por a,  cata de
aventuras.
Lembrando-se dos acontecimentos da vspera, Raryana estremeceu.
- Voc sabe que, no ntimo, sou covarde. Quero me sentir segura a seu 
lado, como me sinto agora.
- Cuidarei de voc e a amarei at o fim da vida. E tenho a impresso de 
que, mesmo depois da morte, continuaremos juntos.
Ela nunca o ouvira falar com tanta seriedade.
Quando casaram na igrejinha inglesa e fizeram seus votos, Raryana 
percebeu que o marqus estava to emocionado quanto ela.
A cerimnia religiosa era sagrada para os dois.
Ao entrarem na carruagem, ela disse, meigamente:
- Amo voc! No pensei que pudesse am-lo mais do que o amava, mas o amo 
ainda mais!
- Logo, eu lhe provarei. Mas agora, querida, temos que ir almoar na 
embaixada, porque no pude recusar o convite do embaixador.
Sua Excelncia tinha sido testemunha do casamento e os seguia em outra 
carruagem.
Embora Raryana ansiasse por ficar a ss com o marido, compreendia que a 
parte social era um nus inerente  posio importante do marqus.
A embaixada era muito bonita, com jardins floridos. Havia um pequeno
grupo de convidados, todos muito alegres.
S quando saram da embaixada, o marqus disse a Raryana que no iam para 
o iate, e sim, para uma villa.
- A casa  muito bonita, Passaremos l trs ou quatro dias, ou mais, se 
voc quiser. Quanto a mim, s desejo ficar completamente a ss com voc, 
minha querida.
Quando viu a villa, que tinha sido emprestada ao embaixador por um 
francs que voltara para Paris, Raryana achou que no podia haver nada 
mais perfeito para uma lua-de-mel.
Tinha sido construda na orla do deserto e a decorao era uma
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mistura de Oriente e de Ocidente, com o luxo ocidental e a extica beleza 
oriental.
Ficou encantada com os tapetes que decoravam tanto o cho quanto as 
paredes, e com as esttuas e os enfeites, sendo que muitos daqueles 
objetos tinham vindo de tmulos de reis egpcios.
O quarto era branco e fresco; a cama, larga; os tapetes, macios; e os 
espelhos antigos lhe davam um encanto que fazia com que o ambiente fosse 
perfeito para o amor deles. O quarto estava cheio de flores mandadas pelo 
marqus: lrios, orqudeas, gardnias.
No centro da casa havia um ptio onde uma fonte espargia gua sobre 
plantas exticas. Clematites e buganvlias cresciam sobre os muros, numa
colorida profuso.
Havia laranjeiras e pinheiros no jardim, assim como uns lugarzinhos
secretos onde podiam se sentar tranquilamente, cercados por moitas
perfumadas, sabendo que, do outro lado do muro, s existia a imensido de
areia do deserto.
Agora,  janela, vendo o deserto desolado ao luar, Raryana compreendeu 
que a areia que se prolongava at o horizonte podia gerar medo e 
desespero nas pessoas.
Depois achou que os egpcios, que sempre se tinham preocupado com a ideia 
da morte, a ponto de se dizer que a vida de um egpcio era uma jornada em 
direo a ela, haviam deixado a Esfinge como um smbolo de esperana.
Um smbolo de vida, que talvez muita gente no compreendesse.
Via a silhueta estranha, com sua cabea danificada. Sempre fora 
considerada um enigma, mas Raryana compreendia, embora pudesse estar 
enganada, o que os egpcios pretendiam ao constru-la. Para eles, os 
deuses eram personificados por animais; portanto, fizeram a Esfinge meio 
animal e meio humana, significando que toda criatura  meio humana, meio 
divina.
E qual era a chave para a divindade do homem, a no ser o amor?, 
perguntou a si mesma.
Era o amor o que elevava o homem, da banalidade para um cu onde ele 
poderia compreender a prpria grandeza e a importncia da vida.
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Ao pensar nisto, soube que nunca mais se sentiria s ou insignificante. 
Tinha seu lugar determinado no universo, e a melhor prova era a cadeia 
dos acontecimentos que a trouxeram ao ponto onde estava, como mulher do 
marqus.
Nisto, a porta se abriu e ele entrou no quarto.
Viu-a  janela e foi para perto dela.
Percebeu, ao luar, que o rosto de Raryana se transfigurava, com uma 
felicidade ilimitada, porque ele estava ali.
- Em que est pensando, minha querida?
Instintivamente, ela se aproximou, e o marqus sentiu o corpo quente e 
macio sob o nglig transparente.
- Estava pensando em voc e... em nosso amor.
- Ser que poderamos pensar em outra coisa, hoje?
- Estava pensando tambm que nunca mais me sentirei insignificante ou 
solitria. Sei agora o que andava procurando. Sei por que estava inquieta 
e infeliz, sei que odiava as pessoas, simplesmente porque no podiam me 
dar o que eu queria.
- O que era? - perguntou o marqus, embora soubesse a resposta.
- O amor. O amor que tenho por voc e que... acho que voc tem por mim.
Ele riu de mansinho e seus lbios buscaram os dela.
- Se duvidar de meu amor, terei que demonstr-lo, e  uma coisa que estou 
ansioso por fazer!
Beijou-a, e de novo Raryana sentiu o xtase que ele despertava nela, o 
ardor da paixo que a consumia desde a primeira vez que o marqus a 
beijara.
Agora que tinha certeza do amor dele, era tudo ainda mais maravilhoso.
Quando o marido se afastou um pouco, ela disse, com certa incoerncia:
- Talvez isto j tenha acontecido antes. Talvez tenhamos nos conhecido e 
amado, e  por isto que nos sentamos incompletos... at ficarmos juntos 
novamente.
- Tambm acredito nisso. Por essa razo, minha adorada,
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nunca nos separaremos. No haver morte, no que nos diz respeito, apenas 
um novo comeo. Raryana olhou para a beleza do deserto enluarado e 
suspirou:
- H tanta coisa para voc me ensinar... tanta coisa para eu aprender... 
mas o amo, e tudo ser fcil.
O marqus afastou da testa dela uns fios dos cabelos que lhe caam at os 
ombros e achou que parecia uma sacerdotisa que sara de um templo.
Depois, o calor do corpo daquela mulher, as vibraes que a ele
transmitia, a maciez dos lbios, tudo isto afastou de sua mente qualquer
outro pensamento, a no ser a paixo que os dominava.
- Amo voc!  minha mulher adorada. Minha at a eternidade.
Beijou-a com uma paixo avassaladora, com lbios exigentes, possessivos.
Mas Raryana no sentiu medo. Sabia que, dentro dela, uma sensao 
maravilhosa correspondia ao desejo dele; sabia tambm que, 
espiritualmente, eram uma s pessoa.
O marqus beijou-lhe o pescoo e depois, puxando para baixo o nglig e a 
camisola, beijou-lhe os seios.
Ela estava ofegante, sentia as plpebras pesadas. No sabia o que estava 
acontecendo, mas desejava senti-lo mais prximo ainda.
- Eu amo... voc... amo... voc...
Passou os braos em volta do pescoo do marido e sentiu que a paixo dele 
se unia  dela e que no era mais possvel pensar; apenas sentir.
Isso era amor em toda a sua beleza e glria; um amor forte e tempestuoso, 
mas que afastava todo e qualquer medo.
- Eu a amo, querida. Oh, cus, como a adoro, Raryana! Como a desejo!
Mantendo-a cativa com seus beijos, o marqus a afastou da janela e a 
levou para a escurido do quarto perfumado.
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes 
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita 
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou 
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. 
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que 
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides 
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das 
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de 
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e 
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do 
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo 
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
